Manifestação de um leitor sobre leis de incentivo
Olá, Sr. Juremir.
Li seu texto “Reflexos Nacionais”, no jornal Correio do Povo da edição deste domingo (27/03/11). Confesso que estava por fora do assunto.
Tenho 36 anos. Trabalho num hospital e por volta de 01h:30 o entregador de jornal largou o Correio embaixo da porta de uma sala próximo ao meu setor. Como amanheço aqui, e como aos domingos aquele setor é fechado, não me contive e com a ponta dos dedos furtei as notícias. ’Se bobear’ posso até ir preso, creio. Claro, tem internet aqui. É que gosto de ler algo estando de posse (nas mãos), é uma sensação muito melhor.
Mas o que pretendo mesmo é apenas dizer que por causa do furto fiquei ‘por dentro da situação’. Claro que terminei de ler a coluna e fui direto pro Google. Aí não tem como não amar a internet. Eu não entendo muito desses assuntos de incentivos fiscais, mas não foi difícil ler a moral da história: captar até R$ 1,3 milhão para o projeto de criação do blog O Mundo Precisa de Poesia*.
Digamos, vamos crer, que o valor seja apenas para a criação do tal site (blog pra mim é site também). Precisa tanto dinheiro? Será que sou tão leigo? Divulgar a arte, ou ela própria, é mesmo algo tão caro?
Lembrei de um ex-professor de Literatura que disse: literatura não combina com dinheiro. Essa frase nunca me saiu da cabeça, pois na primeira chance de apresentar-lhe um poema ouvi do mesmo: não vais ganhar dinheiro com isso. Desisti.
Mas não posso fugir do assunto. Pois também chamou minha atenção sua citação ‘’uma obra artística deve ter prioridade em relação a problemas como a falta de hospitais?”. Aí o leitor segue folhando o Correio e ao chegar na página 14 lê o seguinte: O Drama Para Conseguir Cirurgia. Pobre dona Elisângela, dois anos na batalha. “As cirurgias priorizam pessoas mais jovens”. Isso é o sistema, mas antes de tudo, Isso é ofensa. “O inferno são os outros”. Sorte dela é a esperança do Beneficência Portuguesa. Se não me engano na Av. Independência (do Brasil?).
Sr. Juremir (como é bom roubar uma notícia), o senhor sabe melhor que muitos: esse é o país do futebol, que sediará a copa do mundo em 2014, desde já fazendo propaganda para o mundo todo de que tudo estará na perfeita harmonia. Inclusive na saúde e na poesia. E se futebol também é arte, um gol pode ser poético. Veremosos os reflexos durante o evento, e após. Esse é o país em que milhões de pessoas se dedicam a debates frenéticos, à mesa do jantar, sobre quem deve sair ou não do bbb (me nego escrever em maiúsculo). Mas as pessoas querem isso. Esse é o país das novelas dos hospitais lotados, da novela semanal de meu vizinho, que ganha uns trocos dormindo no banco do posto de saúde lá perto de casa, aguardando ficha para alguém consultar na manhã seguinte. Veja bem são dois problemas sociais embutidos num só: ter que dormir lá, e ele ter que dormir. Como foi dito, é país da teta. E da não-teta, das crianças que não têm o leite pra beber e nem o que comer muitas vezes.
Mas pra não passar em branco: será que eu não conseguiria um incentivo desses (do blog) pra divulgar meus poemas? Pra tocar meu violãozinho? E, principalmente, pra entrar numa faculdade novamente? . Pois é Sr. Juremir, quando citei acima que desisti, não foi do poema que o professor não aprovou (guardo ele até hoje), foi do curso mesmo, por falta de incentivo. Foram três semestres apenas, quando ainda morava em Canoas. Só três, talvez por isso meu texto fique fora dos padrões da norma culta, como aquele professor gostava.
É isso Sr. Juremir. Nunca prestei-me a escrever pra alguém de algum jornal, mas o e-mail estava ali sorrindo e a madrugada está tranquila, não houve muitas consultas no plantão. É sábado pra domingo e, por incrível que se pareça, as pessoas ficam ’menos doentes’. Graças a Deus.
Saudações.
Giovano
Santa Rosa-RS