Juremir Machado da Silva

Marina, Natura e natureza

Marina, Natura e natureza

Confesso que andei caidinho pela Marina.
A morena quase me pegou.
Aquele seu jeito selvagem, bicho-grilo, onça, fera suave, sinuosa e direta, paradoxal, mulher da floresta, andou me tocando. Eu chegava a cantarolar: “Marina, morena, não pinte esse rosto” que é só do Brasil.
Cheguei a brigar com um amigo que é apaixonado pela suposta autenticidade radical da Dilma.
Para mim, Marina era uma personagem saída diretamente das páginas de Jean-Jacques Rousseau, a boa selvagem que viria salvar o Brasil de si mesmo.
A vida é assim.
A natureza não resiste ao impacto da civilização, que é o processo natural de degradação pela cultura.
A idealista Marina passou, em poucos tempo, de candidata da natureza à candidata da Natura.
Faz uma diferença danada.
O programa vira plano, a campanha vira marketing.
Questão de foco. Ou de nicho.
Antes, as empresas financiavam as campanhas. Agora, pelo jeito, as campanhas vão financiar as empresas.
Tudo é investimento.
A Natura apresenta-se com a grande defensora nacional da natureza e adota a Amazônia, território natural e eleitoral de Marina. Um salto quântico.
Um belo negócio hipermoderno: marketing social, ecológico e sustentável. Tudo ao mesmo tempo. Pacote.
Se Marina não ganhar a presidência do Brasil, pode ganhar a vice-presidência da Natura.
Já o visionário Guilherme Leal, presidente da Natura, ficará satisfeito em ser vice do Brasil.
Maldade minha, não?
Ou realismo?
Meu amigo Gilles Lipovestsky, pensador francês, autor de “Metamorfoses da cultura liberal”, que eu traduzi para o Brasil, sustenta que as intenções não importam, mas os resultados. Pode ser, pode ser...
Mas...
Marina, morena, você se perdeu...
Essa canção não me sai da mente.
Vai ver que a candidata verde amadureceu.
E eu já passei do ponto.
Sou purista.
Para mim, natureza é natureza. Natura é outra coisa.