Medida de segurança no Senado
Tive uma tia que só conhecia dois ditados: “Depois da porta arrombada não adianta tranca de ferro” e “o que não tem remédio, remediado está”. Usava essas fórmulas de sabedoria para qualquer situação, o que lhe dispensava maiores dramas e economizava palavrões ou longas reprimendas. Serviu-se da segunda fórmula quando o marido morreu por causa de um coice de cavalo. Usou a primeira, segundo gostava de contar, quando perdeu a virgindade atrás de um galpão e foi descoberta pelo pai. A frase surtiu tanto efeito que evitou dois assassinatos, 30 anos de cadeia para o assassino e uma família desgraçada.
Minha tia era econômica em tudo. Só reconhecia três “marcas” de carro: ônibus, caminhão e fusca. Lembrei-me da minha saudosa tia ao ler as notícias sobre a comissão criada pelo Senado para investigar vazamento de informações relativas ao pagamento de rescisões superfaturadas. Em vez de condenar o superfaturamento, o diretor-geral da Casa, um certo Haroldo Tajra, quer saber quem entregou os dados para a imprensa. Minha tia certamente lhe diria: “Depois da porta arrombada não adianta tranca de ferro”. Outros, também hábeis no manejo de fórmulas consagradas, acusariam o tal Haroldo de estar tentando culpar o sofá da sala pela traição da mulher. Minha tia seria categórica com ele: “O que não tem remédio, remediado está”. Será mesmo? Nada há a fazer?
Entre 2004 e 2008, 128 funcionários do Senado receberam indenizações superfaturadas por rescisões. O prejuízo para os cofres públicos foi de R$ 257 mil. Quase nada perto do que a turma está acostumada a desviar. Entre os beneficiados consta, por coincidência, Marina de Holanda Menezes Jucá, filha do senador Romero Jucá, que recebeu R$ 2.302 a mais do que deveria. Parece pouco. Mas escandalizaria minha tia. Ela não aceitava que se pegasse uma bala (de revólver ou de chupar) alheia. Na verdade, minha tia manejava os seus dois ditados como um juiz rigoroso: roubou? Cadeia. Afinal, o que não tem remédio, remediado está. Cumpre-se a pena. Mas minha tia era cética por natureza. Achava que a cadeia não ia consertar falta de caráter. Daí a tranca de ferro não resolver o problema da porta arrombada. Minha tia era uma filósofa.
No Senado, pelo que se tem visto, não há tranca de ferro que resolva. A mídia denuncia de um lado, elas derrubam uma porta ao lado. A sociedade tentar remedia as coisas aqui, eles inventam um novo câncer ali. Pelo jeito, os senadores usam os dois ditados preferidos da minha tia em beneficio próprio: dado que não podemos nos livrar deles e que eles já arrombaram todas as portas, teríamos de aceitar o leite derramado: o que não tem remédio, remediado está. Nosso destino seria conviver com a corrupção dos senadores para sempre. Alguns, no entanto, esperam que um coice de cavalo venha eliminar a doença. Outros, mais comedidos, acreditam que as eleições são a única maneira de fechar a porteira. Minha tia anulava os seus votos. Só votou uma vez. Num cachorro.