Tudo se inverte neste Brasil a deriva. Há 50 anos, Roda Viva era uma peça de Chico Buarque transformada em símbolo da resistência contra a ditadura. Hoje, é um programa direitoso de televisão. Em 1968, atores de Roda Viva foram espancados no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, por integrantes do Comando de Caça aos Comunistas. A violência contra os artistas ocorreria também em Porto Alegre. Meio século depois, “comunistas” são caçados nas redes sociais. O CCC agora tem outras siglas. Há pouco a candidata do PCdoB à presidência da República, a gaúcha Manuela D’Ávila, foi presa no Roda Viva da tevê de novos caçadores de comunistas usando velhas técnicas de tortura.
O Brasil esconde a cabeça na areia. Enquanto outros países punem ditadores e torturadores, os brasileiros são protegidos. A Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil por não investigar o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, nas dependências do aparelho repressivo do DOI/CODI, em São Paulo. A Corte foi categórica. O Brasil não pode “invocar nem a existência da figura da prescrição, nem a aplicação do princípio "ne bis in idem", da lei de anistia, ou de qualquer outra disposição análoga ou excludente similar de responsabilidade para escusar-se do seu dever de investigar e sancionar os responsáveis". A roda continua viva. Vai enfim girar?
Alguns fazem questão de ignorar a história. O pré-candidato à presidência da República Jair Bolsonaro, militar fã do regime que envergonhou o Brasil durante mais de duas décadas, preferiu soltar um coice: “Alguns inocentes acabaram tendo um fim que não mereciam, no meu entender. O caso do Vladimir Herzog muitos falam que ele praticou o suicídio". Para Bolsonaro o passado recente é uma ilusão: “Me define o que é ditadura? Nós tínhamos liberdade de ir e vir”. Faltou à aula.
Continua valendo a mensagem de Chico Buarque: “Tem dias que a gente se sente/Como quem partiu ou morreu/A gente estancou de repente/
Ou foi o mundo então que cresceu/A gente quer ter voz ativa/No nosso destino mandar/Mas eis que chega a roda-viva/E carrega o destino pra lá”. O destino atende por vários nomes: golpe, impeachment, eleições, manipulações de mídia, poder econômico. O personagem central de Roda Viva, Benedito Silva, que troca de nome para Ben Silver com a intenção de agradar ao público e se adequar ao imaginário, parece estar mais na moda do que nunca. A operação dos entrevistadores de Manuela no Roda Viva é chamada de “manterrupting”, vulgo machismo, em português de boa fonte, sob a forma de interrupção constante da fala de uma mulher.
A roda está viva? Nos tempos de youtubers racistas e rasteiros dá uma sensação nostálgica de que está faltando mais Chico Buarque. Cada época com a sua tecnologia. Cada tempo com o seu desafio. Onde está resistência? O Brasil precisa ser passado a limpo? Um bom começo seria a revisão da Lei da Anistia. Foi uma lei de autoanistia para ditadores e torturadores. “A gente vai contra a corrente/Até não poder resistir/Na volta do barco é que sente/ O quanto deixou de cumprir”.