Diz a sabedoria popular que é melhor ser surdo do que ouvir certas coisas. Há quem diga também o contrário. Um advogado, homem culto e sensível, enviou uma mensagem a um amigo, que se encarrega com desvelo da mãe nonagenária. Ela é uma senhora cheia de vida, falante, otimista e contadora de boas histórias. Vez ou outra, para se divertir, joga alguns reais no bicho. Está um pouco surda. A mensagem é um retrato do Brasil contemporâneo. Melhor do que muita tese. Mais clara do que muitos tratados sociopolíticos e jurídicos. Usa a linguagem do nosso cotidiano. Revela sentimentos éticos nítidos.
"Faz mais de mês que não vou na... O processo da..., agravei da decisão, levamos nos dedos. Agora vou entrar com embargos declaratórios. No governo do... estas próteses saiam em seis meses. Agora eles estão trancando, não sei se por causa dos escândalos das próteses ou se é política de governo. Eles querem que ela vá a... e faça novamente todos os exames e entre na fila de fornecimento das próteses! Um absurdo! O procurador do estado disse que não se submeter a novos exames é questão de comodismo. Garanto que se fosse a mãe do filho da p... ela já estaria com as próteses. As elites estatais pensam que fazem favor aos cidadãos. Eles vivem flanando na vida de privilégios, não sabem o que é dificuldade de viver. Imaginem uma senhora de 92 anos se negando de ir a... e entrar na fila do SUS por comodismo! Uma cambada de filhos da p...! É revoltante! Não dou para a advocacia. Quase infarto nessas situações! Tenho vontade de agarrar o juiz pelo pescoço! É difícil advogar com este judiciário. Acho que eles não leem o que escrevo!” Cortei nomes e lugares por precaução.
O procurador propõe que a senhora faça uma viagem. Ela já não se vê em condições de percorrer centenas de quilômetros para entrar numa fila. Só quer ouvir os sons que a alegram e fazem desejar viver por muito tempo. A nova economia política, porém, manda desconfiar de todo mundo, especialmente desses comodistas quase centenários interessados em lesar o erário público com sua surdez. Depois deste texto, se duvidar, será feita uma investigação para identificá-la e condená-la por jogar no bicho. Retiro essa afirmação. Devo ter ouvido mal. Ela vê televisão com o som alto. Visita as amigas.
Conversa sem ouvir tudo.
Vivemos o tempo extraordinário em que se quer cortar pensão de viúva pela metade, mas não se planeja taxar grandes fortunas. A explicação é lógica: fortunas sobretaxadas fogem para o estrangeiro. Depois, passado algum tempo, voltam graças a alguma anistia aprovada pelo Congresso Nacional. Viúvas não podem escapar. A velhice é um problema grave no Brasil. Passa-se a depender ainda mais dos governos e das políticas públicas numa época em que o Estado só deve ser máximo para bancos e empresas de telefonia, que recebem perdões homéricos por dívidas que jamais pensaram realmente em pagar. Assim se fica mais rico. É o capitalismo de compadrio. Uma mão financia a outra. Todas elas se protegem na hora do aperto. Só os pobres é que atrapalham. Esses miseráveis!