Juremir Machado da Silva

Memórias de um fotógrafo na linha de frente da Legalidade (1)

Memórias de um fotógrafo na linha de frente da Legalidade (1)

Lemyr Martins era fotógrafo do Palácio Piratini na época da Legalidade (1961). Ele foi uma das minhas fontes para escrever o livro "Vozes da Legalidade, política e imaginário na era do rádio" (Sulina/Record-RS). Publico aqui um texto escritor por ele sobre o último grande ato de bravura dos gaúchos.
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Os generais e os políticos golpistas jamais imaginaram que enfrentariam obstáculo tão forte e determinado em Leonel Brizola, quando decidiram impedir que João Goulart assumisse a Presidência do Brasil em 1961. O então governador do Rio Grande do Sul fez a maior revolução pelo rádio da história do Brasil para garantir a posse do vice-presidente João Goulart, após a enigmática renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto daquele ano.

Brizola fazia discursos candentes ao microfone da Rede da Legalidade, uma emissora montada na sala de imprensa, no porão do Palácio Piratini -- que se transformaria no Porão da Legalidade --, e chegou a ser retransmitida por 104 prefixos nacionais, muitos sul-americanos e referida nas vozes internacionais da BBC, inglesa e Deutschewelle na Alemanha e Holanda .

Todo o esquema da guerra de divulgação era coordenado por Hamilton Chaves, jornalista e chefe de imprensa do governo, que me instruía a documentar o útero da Legalidade. E lá ia eu de Rolleiflex, filme 120, 6x6, de 100 asas e flash eletrônico, fotografar os ninhos de metralhadoras no terraço e telhado do Palácio. Armas impressionantes pela aparência, muito fotogênicas, com enormes pentes de balas, mas obsoletas. Inofensiva para a tarefa antiaérea de nos proteger do bombardeio, que o governador golpista Carlos Lacerda, do Rio de Janeiro, anunciava, também através do rádio, como próxima missão da Quinta Zona Aérea, localizada em Canoas.

Havia risco do cano das armas da nossa artilharia emperrar com o calor do fogo constante e a dúvida que as espoletas, armazenadas a mais de 30 anos, detonassem. Afinal, eram armas da década de 30, supostamente importadas da Tchecoslováquia pelo então interventor Flores da Cunha.

Na época, poucos sabiam da precária condição do nosso arsenal, mas a tática era tirar o máximo proveito psicológico do nosso armamento.

Nas fotos das barricadas e trincheiras, guardadas pelos soldados da Brigada Militar do RS, o clima era de guerra e de definitiva e inexpugnável resistência. Um grande efeito moral visual, sustentando os dramáticos e desafiadores discurso de Brizola, contra a trinca do golpe: general Odilio Denys, ministro da guerra, Sílvio Heck, marinha e o brigadeiro Grum Moss da aeronáutica.

Eu buscava fotos de efeito visual, bélico e patriótico, que Hamilton Chaves, comandante da guerra de divulgação, nos ordenava a fotografar tudo e muito, que envolvesse a mobilização do povão nas ruas de Porto Alegre e interior. Como não se podia enviar as fotos, e filmes de 16 milímetros para a televisão, por via aérea, porque os passageiros oriundos de Porto Alegre tinham as bagagens revistadas nos aeroportos de Congonhas e Santos Dumont, passamos a enviar por passageiros de ônibus. Tudo ia bem até Curitiba. Mas na entrada de São Paulo os ônibus passavam por pente fino. Para que as fotos passassem no bloqueio do Paraná e chegassem aos jornais do Rio e São Paulo, onde o Estadão, e os cariocas Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Última Hora publicavam tudo, o material passou a ser enviado por caminhoneiros do PTB, naturalmente, getulistas e brizolistas.