Juremir Machado da Silva

Memórias de um fotógrafo na linha de frente da Legalidade (2)

Memórias de um fotógrafo na linha de frente da Legalidade (2)


A coleta do material fotográfico em São Paulo e Rio de Janeiro tinha pontos determinados e os códigos eram passados por rádio amadores.

Apenas um material foi apreendido, porque depois de enviar as coordenadas, via rádio da Casa Militar, na qual a roupa (fotos) da festa (Porto Alegre) seria entregue pelo alfaiate (portador) na loja de música – Bar e Restaurante Bolero, em Copacabana, o oficial de Gabinete do Governador, que transmitia a mensagem, na ânsia do sucesso da missão completou: “Olha, dê prioridade para a Última Hora e o Jornal do Brasil, por que têm fotos do Jango com o general Machado Lopes”.Brizola fazia dois discursos diários ao vivo, um vespertino e outro noturno, para uma multidão de até 30 mil pessoas – embora o porta-voz do PTB insistisse que beiravam os 100 mil - comprimidas na praça e cercanias do Palácio Piratini. À noite ainda havia a palestra através da Rede da Legalidade, instalada na sala de imprensa, no porão do Palácio, numa área de 12 metros quadrados, montada e coordenada pelo engenheiro Homero Simon, herói da resistência via onda curta.

A guerra do rádio estava sendo ganha por Brizola, cada vez mais agressivo e contundente nos seus discursos. Num deles ele diagnosticou o General Odilo Denys de caso patológico de esquizofrenia e provocava os generais golpistas (“Gorilas”) incitando os sargentos a tomarem os quartéis sob controle da junta militar e mandou distribuir revólveres, Taurus 38, aos jornalistas e funcionários que davam plantão no Palácio.

Os diretórios do antigo PTB arrebanhavam a companheirada do interior e da capital, tornando Porto Alegre uma frenética praça de patriotismo, com milhares alistando-se espontaneamente no saguão do Piratini, para lutar pela democracia. Voluntários, de crachá do Exército da Legalidade na lapela, dispostos a ir à luta pela posse de Jango.

“Vamos correr com o Lacerda e amarrar nossos cavalos outra vez no obelisco no Rio de Janeiro”- garantia um maragato ao coronel da Brigada Átila Escobar, numa alusão ao que fizeram os revolucionários de 1930, quando Getúlio Vargas assumiu a Presidência da República.

Uma faixa por segura por peões devidamente pilchados, garantia que poriam os milicos golpistas a correr para o Paraguai.

Houve, e não foram poucos, os pequenos comícios dentro da multidão da Praça da Matriz que pregavam o separatismo, do Rio Grande do Sul, da União, aceitando, fraternalmente, a inclusão de Santa Catarina e Paraná na nova pátria.

“Venha doutor João Goulart, venha nosso Jango, o povo brasileiro garante a tua posse” afiançava Brizola nos discursos, chamando o vice-presidente João Goulart, seu cunhado, para assumir a presidência sem nenhuma concessão à junta militar golpista.

Apelo semelhante ao que ele já havia feito a Jânio Quadros, convidando o presidente renunciante a vir para o Rio Grande: “Nós, os gaúchos, garantimos o seu direito constitucional”, disse dias antes, quando suspeitava que o “Homem da Vassoura” estava sendo vítima de uma quartelada. Depois, transpirou que Jânio Quadros tinha exagerado no uísque, enquanto via três filmes de bang-bang no Alvorada, e escreveu a carta-renúncia, atribuindo o seu gesto às “Forças Ocultas”, que nunca foram identificadas.

Se o Rio Grande do Sul atacava com fatos, Brasília respondia com boatos. Com exatidão, só se sabia que o deputado paulista Ranieri Mazilli, presidente da Câmara, assumira a presidência da República quando foi decretada a “vacância” do cargo pelos ministros militares. Mazilli, que não esquentou o trono, recebeu o apodo de “presidente modess”: branco de medo e colocado num lugar crítico para evitar derramamento de sangue.
O povo estava fechado com a Legalidade, e Leonel Brizola sentiu que era uma oportunidade histórica que lhe caiu no colo e resolveu abraçá-la com toda a força. A cada discurso chovia adesões. Umas dramáticas, como as das enfermeiras da Santa Casa e do Pronto Socorro que fundaram o Pelotão Anita Garibaldi, entre outras tantas legiões de voluntárias.

Aquelas noites de agosto foram de suspense e marcadas pela guerra de rumores. Do Rio de Janeiro, mais exatamente do Palácio do Catete, surgiu a notícia de que a troika militar do golpe recebera a adesão do comandante do IIIº Exército. Era dado como certo que José Machado Lopes, um general desconhecido até aquela data, que tinha comando sobre as tropas do RS, SC e PR, havia embarcado na madrugada, na Base Aérea da Canoas, sede da Quinta Zona Aérea, para Brasília onde entregaria o comando do IIIº Exército ao Ministro da Guerra.

Outro boato bem plantado pelos golpistas era o de que Machado Lopes viria ao Palácio Piratini para demover Brizola da resistência à Legalidade e desmobilizar a Brigada Militar, para evitar confronto com a força do IIIº Exército.

Ás duas horas da madrugada essa hipótese parecia confirmar-se com a vinda do Coronel Moojen, comandante da Brigada Militar, ao Palácio precedendo a chegada de mais um contingente de brigadianos do Batalhão Bento Gonçalves, ao Piratini. Moojem, mais o Coronel Campomar, chefe da Casa Militar, Coronel Átilia Escobar e os capitães Neme, Nike, Jacques e Walter, ajudantes de ordens do governador, faziam a corte a Brizola, ouvindo os planos do comandante para a “visita” de Machado Lopes.