Memórias de um fotógrafo na linha de frente da Legalidade (3)
Ás 2,30 horas da madrugada Brizola comunicou aos seus oficiais militares o que eles já sabiam e esperavam: Não aceitaria a prisão, comunicada pelo ministro da guerra e, enfatizou que estava preparado para “hospedar” o comandante do IIIº Exército na Casa Militar do Palácio, com todo o conforto, pelo tempo necessário”.
Na manhã de segunda-feira, 27 de agosto de 1961, fui posto de plantão para fotografar o encontro de Brizola com o General Machado Lopes, que aderira à Legalidade, pela posse do vice-presidente João Goulart. Lembro muito bem que Brizola agia entre tenso e feliz. Como sempre, ele via naquele episódio da crise, mais uma oportunidade de firmar-se como arauto da luta pela democracia.
Hamilton Chaves me chamou para uma reunião e determinou: “Vamos ficar atentos e fotografar tudo, mas sem corre-corre. Esse encontro vai ser histórico, seja qual for a decisão”.
Entendi o recado e fui montar o plantão junto ao Gabinete do Governador, com muitos filmes, flash com bateria nova e duas Rolleyflex.
À noite da véspera do encontro entre Brizola e Machado Lopes o país estava sob forte tensão. O quilômetro que separa o Palácio Piratini do QG do IIIº Exército retratava bem a atmosfera da crise. A rua da Praia, da subida da Ladeira até a esquina com a rua Bento Martins era uma área mergulhada em silenciosa penumbra, quebrada apenas pela luz amarela e ruídos dos linotipos e da rotativa do prédio do Correio do Povo.
O edifício cinza do QG parecia um sepulcro, depois que teve trânsito de carros e pedestres proibido em torno do seu perímetro. Um cofre de onde poderia sair – e saiu -- a decisão mais importante da crise político-militar, daquele 1961.
O 29 de agosto amanheceu calmo. Às 6 horas fui fazer minha revista fotográfica nas tropas e senti – como se diz no jargão militar – o alto moral do contingente, sorvendo o chimarrão, que corria solto e democrático nas trincheiras, entre praças, cabos e sargentos.
Nas barricadas e no telhado do Palácio havia a troca de sentinelas, enquanto na Praça da Matriz já tinha meia lotação, seguramente 5 mil pessoas, à espera de novidades.
No fim da manhã chegou Francisco Brochado da Rocha, o Secretário de Interior e Justiça do RS, com seu notório saber jurídico, sorriso fácil e postura diplomática. Parecia um mensageiro da paz, com imperturbável serenidade. Brochado – que seria Primeiro Ministro do Gabinete Parlamentarista de Jango -- estava ali para, junto com Brizola, receber o General Machado Lopes em audiência. Enfim, ia acontecer o encontro histórico, que eu aguardava ansioso com muitos filmes e minhas duas Rolleyflex.
. Após a Ordem do Dia no QG e de Brizola barbear-se às 7,15h, no Piratini, para disfarçar a noite em claro, o cenário estava pronto. O que eu sequer imaginava é que aquela ocasião esteve sendo preparada nos mínimos detalhes, desde as primeiras horas da manhã. Foi armado um esquema de segurança para a chegada de Machado Lopes ao Palácio. Oficiais da Brigada e do IIIº Exército, organizaram um plano para que a chegada do general fosse tranqüila, prevenindo-a de possíveis hostilidade por parte de legalistas acampados na praça.
O encontro foi formal, não além das protocalares saudações habituais.
- Como está o senhor general? Adiantou-se Brizola,
- Bem, senhor governador – respondeu Machado Lopes, apresentando os generais do seu Estado Maior: o calado Santa Rosa e o sorridente Pery Bevilaqua.
Pelas gentilezas e comportamento, percebia-se que ninguém iria preso.
Brizola me fez um sinal para eu apressar com as fotos e, admito, trêmulo com o privilégio do registro, fiz um filme com cada Rolley, circulando em volta da mesa, que tinha Brochado da Rocha, Machado Lopes, Brizola no centro e Santa Rosa e Bevilaqua, além do capitão Neme, ajudante de ordens principal do governador, em pé na soleira da porta do gabinete.
Nós tínhamos inventado uma forma dos jornais publicarem nossas fotos como se fossem suas, escondendo a oficialidade da Sala de Imprensa. Simples e de efeito estupendo. A gente batia várias chapas, ampliava as fotos tamanho 18x24, deixando uma margem branca no pé da imagem, onde ia o carimbo garantindo a exclusividade à cada jornal: Foto exclusiva para o Correio do Povo, ou exclusiva para a Folha da Tarde, Folha da Tarde Esportiva, Diário de Notícias, Jornal do Comércio, Jornal do Dia -- é Porto Alegre tinha seis jornais diários, à época da Legalidade. O procedimento era igual no material enviado às publicações do centro do país.
Quando cheguei na Sala Imprensa, no porão, para revelar as fotos do encontro, o clima entre os jornalistas era de expectativa e apostas. Tarso de Castro, Flávio Tavares, Índio Vargas, Lucídio Castelo Branco, Abdias Silva, Jaime Kueneck, o elétrico JK dos Diários Associados, e Carlos Felberg, que cobriam o dia-a-dia do Palácio e a noite e dia da Legalidade, esperavam ansiosos pelo resultado do encontro.
Claro que Brizola não ia perder aquela magnífica chance de anunciar ao mundo – sim, mundo, por que também estavam presentes as agências Associet Press, France Press, United Press e Prensa Latina – que o “Glorioso IIIº Exército não recebia mais ordens dos gorilas.
Depois de deixar o Palácio Piratini, na companhia do seu Estado Maior, Machado Lopes enviou o seguinte radiograma aos comandantes do Iº e IIº Exércitos (Rio de Janeiro e São Paulo), divulgado pela Rádio da Legalidade, após as três horas protocolares solicitada pelo general.
“ Comunico aos prezados amigos que o IIIº Exército, sob o meu comando, perfeitamente coeso em torno de seus chefes, resolveu, como era seu dever, apoiar integramente a Constituição, não podendo aceitar soluções para a crise atual que não seja apoiada nela”.
Assinado General Machado Lopes
Comandante do IIIº Exército.
No final da tarde o comandante recebeu um radiograma do então Ministério da Guerra, no qual comunicava ao ilustre colega que o General Muricy viajaria para Porto Alegre para assumir o comando do IIIº Exército.
Machado Lopes, com saudações protocolares, no início e final da mensagem, respondeu que: “Se o ilustre general chegasse a Porto Alegre, seria preso”. E por ai ficou a derradeira tentativa dos golpistas abafar a Legalidade.
O clima então passou de tenso a fervor patriótico. A Rede da Legalidade funcionava a pleno vapor, com a sua cadeia de 104 rádios e “miles e miles” de alto falantes, como garantia Brizola. As mensagens já eram retransmitidas em Manaus, Belém e, de Recife, Miguel Arraes, governador de Pernambuco, solidário com Brizola, desde o início, fazia sua pressão legalista. Mauro Borges, governador de Goiás, montava uma barricada no Palácio das Esmeraldas declarando-se pronto para marchar sobre Brasília em apoio à Constituição.
As manchetes eram favoráveis à posse de João Goulart, sem restrições. A da Ultima Hora, atribuída a Goulart: JANGO: “VOU VOLTAR PARA ASSUMIR OU MORRER”,virou cartaz gigante, exibido na praça da Matriz.
Só faltava Jango voltar e assumir a presidência da república, com garantia da Constituição. Começava então a nervosa “operação regresso”.