Memórias de um fotógrafo na linha de frente da Legalidade (4)
Jango estava na China representando o governo Jânio Quadros. Partiu de Pequim e depois de várias escalas, por Los Angeles, Lima, Santiago, entre outras, chegaria a Montevidéu, a Suíça sul-americana, assim aclamada nos discursos de Brizola. Buenos Aires, uma das escalas previstas, saiu da rota porque o ditador Juan Domingos Perón tinha sido hostil à aterrissagem de Jango em território argentino.
Fui enviado à embaixada do Brasil, no Uruguai, última escala do regresso de Goulart, para, na comitiva de jornalistas, escoltar Jango no vôo que o traria de Montevidéu a Porto Alegre.
Na saída, fui instruído por Hamilton Chaves a buscar uma imagem especial. Uma foto de impacto, vigorosa, que simbolizasse resistência e vitória e motivasse a posse de Goulart. Tentei todo tipo de foto. Mandava os “flashaços” a cada gesto de Jango, mas não captei nada de impacto, pois apesar das circunstâncias, ele mantinha o seu comportamento passivo usual.
Quase na partida para Porto Alegre tive um lampejo extra-fotográfico: entreguei uma folha de papel da embaixada a Jango e pedi ao presidente que escrevesse uma mensagem ao povo brasileiro.
Ele não hesitou. Pegou a folha de papel, a minha caneta e, com o costumeiro cigarro no canto da boca e na falta de melhor apoio, usou minhas costas para escrever esta mensagem:
“Aos companheiros que lutam pela legalidade nos porões do Piratini, um abraço do Jango”.
Não fiz a foto que meu chefe desejava, mas trouxe a primeira mensagem do novo presidente à nação.
O parágrafo virou placa e foi afixado na Sala de Imprensa do Porão da Legalidade. Mais tarde, quando Ildo Meneghetti assumiu o governo do Estado, e os militares instalaram a ditadura, em 1964, a placa foi retirada e destruída. Uma outra voltou ao local no final do mandato de Germano Rigotto, em 2006, sei lá por quanto tempo.
A Legalidade começou a ficar divertida. Com adesão do exército, marinha e aeronáutica, sediados no Rio Grande do Sul, estávamos livres do bombardeio ao Palácio pelos aviões da Quinta Zona Aérea. A ameaça de ataque vindo do porta-aviões Minas Gerais, que estaria deslocando-se para águas gaúchas, foi desmentida e o vaso de guerra sequer tinha zarpado da baía da Guanabara. Na verdade, a revolução perdia a ameaça do confronto militar e passava ao terreno político. Carlos Lacerda, (Rio) Carvalho Pinto, (SP) Magalhães Pinto (MG), governadores golpistas, contrário à posse de Jango, ainda conspiravam junto aos militares.
“O presidente do Brasil, chega amanhã em Montevidéu”, anunciou Brizola, com audiência de 100% na Rede da Legalidade. Fez um sinal para Naldo Freitas, subchefe de imprensa, primeiro locutor da Rádio da Legalidade e do Show de Notícias da Tv Excelcior, ler uma mensagem do congresso uruguaio,declarando solidariedade a los hermanos brasileños na luta pela legalidade.
Também foram lidas centenas de adesões patrióticas ressaltando as do Clube Feminino de Bolão da Sociedade Gondoleiros, das candidatas a Miss Objetiva e das concorrentes a Mais Bela Comerciaria. Não havia discriminação para as mensagens coletivas, todas eram lidas ao microfone da Rede da Legalidade, só foram vetadas as individuais de oportunistas na busca de notória promoção pessoal.
Os motoristas de táxis estavam prontos para transportar tropas. Os pracinhas da FEB alistavam-se novamente e os radioamadores do RS uniam-se para defender a Legalidade. As associações de bairros informavam que tinham mais de 50 mil voluntários. Os GTGs - Centro de Tradições Gaúchas -, existentes em todos os municípios do Rio Grande do Sul – integravam os Comitês de Resistência Democrática, com representante permanente nas trincheiras cavadas na Praça da Matriz.
A participação do povo era de emocionante civilidade. Gremista e colorados, consolavam-se com o cancelamento do Grenal de agosto e foram agitar as suas bandeiras em frente ao Palácio.
A Assembléia Legislativa (colada ao Piratini) declarou-se em sessão permanente e os deputados, sensíveis a solidariedade da multidão à Legalidade, faziam incursões estratégicas, improvisando discursos patrióticos para a receptiva assembléia.
Os sargentos da Base Aérea de Canoas, que haviam impedido a decolagem dos aviões que deveriam bombardear o Palácio, eram heróis do povão. As componentes da Associação de Mães Gaúchas abriram os guarda-chuvas para proteger-se do mau tempo, cantando o Hino Nacional na praça do Palácio, desafiando o bombardeio.
O que ficou o dito pelo não dito foi a frase de dom Vicente Scherer, publicada em manchete pela Última Hora, na qual o arcebispo teria afirmado que: “ Esperaria as bombas junto ao Palácio”. Vale lembrar que a Cúria Metropolitana é separada do Piratini por muros.
Sua Eminência não quis confirmar a manchete, mas não negou, embora se declarasse contrariado com o ninho de metralhadoras instalado na torre da Catedral.
Algumas frases se consagraram na retórica inflamada de Brizola:
“O golpe não será dado pelo telefone”, abriu o primeiro discurso na Rádio da Legalidade, retrucando o porta-voz da junta militar, que telefonou e telegrafou aos governadores dos estados, na madrugada de 27 de agosto, comunicando que não aceitavam a posse de João Goulart.
“Não daremos o primeiro tiro, mas o segundo e o último serão nossos”, ameaçava Brizola quando o Palácio Piratini esteve ameaçado de ataque.
Já o aforismo “Rasgaram a Constituição”, causou alguma confusão.
O escritor Josué Guimarães, amigo de Brizola e um dos resistentes do Piratini, teve que esclarecer a dona Emídia, vice-presidente do diretório do PTB da Vila Jardim, o porquê do governador não ter uma cópia da Constituição, rasgada pelos militares”.
Depois que Josué garantiu que sim, o governador tinha cópia, dona Emídia improvisou um mini-comício impostando a frase redentora. “Não faz mal que os milicos rasgaram a constituição, o doutor Brizola tem cópia lá dentro”, afirmava a Emídia, que mais tarde comandaria o seu Grupo dos Onze, uma célula de resistência criada por sugestão de Brizola.