Juremir Machado da Silva

Memórias de um fotógrafo na linha de frente da Legalidade (6)

Memórias de um fotógrafo na linha de frente da Legalidade (6)


O movimento da Legalidade esfriou nas ruas e esquentou no Palácio, após Jango chegar a Porto Alegre e render-se ao Parlamentarismo. Uma emenda à Constituição da autoria do deputado gaúcho Raul Pilla, que dormia na gaveta do parlamento desde a Constituinte de 1946, aprovada às pressas pelo Congresso, sob pressão dos militares para limitar o poder de Goulart.

Logo após a histórica fotografia do abraço com Brizola, Jango pediu calma ao cunhado com frase também histórica, mas contida: “Vamos evitar o derramamento de sangue numa guerra fratricida”.

A atitude de Goulart decepcionou Brizola que, sem sucesso, tentou demover o presidente daquele acordo que ele considerava capitulação. Uma renúncia ao direito constitucional pelo qual ele tinha levantado o povo brasileiro e que garantia todo o poder a Jango.

Pouco transpirou das discussões dos cunhados entre as paredes da ala residencial do Piratini. Sabe-se que foram ríspidas e acaloradas, mas que quem as presenciou silenciou.

O fato é que Leonel Brizola mudou de semblante, recolheu-se e foi dar atenção a sua mulher Neuza, desconfortável com as querelas antagônicas entre o marido e o irmão.

Prevaleceu a decisão de Jango – para Brizola a dos golpistas – que aceitou o arranjo político e viajou para Brasília na companhia de Tancredo Neves, enviado dos militares a Porto Alegre, para costurar o acordo.

Ele viajava na primeira poltrona da direita do Caravelle, entre Ruben Berta e Tancredo Neves e, embora eu estivesse concentrado e fotografando as suas reações, me espantei com dois fatos especiais da viagem.

O primeiro veio de Berta, então presidente da Varig, que garantiu que não haveria a tal “Operação Mosquito”, anunciada por alguns oficiais do comando da aeronáutica brasiliense. Motivo: simplesmente os aviões de combate da FAB na época, os Glosters Meteors, caças a jacto britânico da Segunda Guerra, trocados por algodão com a Inglaterra, eram 120 km/h mais lentos do que o Caravelle.

O segundo fato foi a passividade com a qual Jango ouvia de Tancredo Neves – que seria o seu primeiro chefe do Gabinete Parlamentarista – as condições que eram impostas pelos militares à sua posse.

Já Brizola, tentando controlar a decepção com o desfecho da Legalidade, colocou dois aviões à disposição dos jornalistas gaúchos que quisessem ir a Brasília assistir a posse de João Goulart. No seu último discurso ao microfone da Rádio da Legalidade ele alertou:

“Os golpistas não desistiram. Eles deram uma trégua, mas continuarão conspirando contra o Jango. O povo brasileiro deve ficar em alerta para que a democracia não seja golpeada”.

Brizola acertou em cheio, o golpe veio em 1964, derrubou Goulart e ficou 31 anos no poder.