A vitória do Atlético, no qual em apostei desde o começo da Libertadores 2013, me deixou com vontade de escrever hoje sobre futebol. Muitos mitos e preconceitos foram desabaram.
Gosto disso.
O futebol está na minha vida desde sempre. Fiz faculdade de jornalismo para ser repórter esportivo. Cresci em Palomas ouvindo a Rádio Guaíba e, na Copa do Mundo de 1970, com oito anos de idade, eu já sabia o que queria fazer. Foi só esperar o tempo de botar o pé na estrada e abrir espaço.
As faculdades mudaram meus rumos. Mas, curiosamente, meu primeiro emprego, na Zero Hora, foi como repórter esportivo. Por quase três anos, fui setorista do Grêmio. Cobri jogos das eliminatórias da Seleção Brasileira em 1989. Na Europa, como correspondente, o esporte me ocupou muito: cobri a morte de Ayrton Senna, mundial de vôlei, amistosos do Brasil, acompanhei a vida dos brasileiros no PSG, entrevistei Ronaldo Nazário, na Holanda, quando ele ainda era um menino e o técnico interino, de saída, sem conseguir se comunicar com ele, me pediu para dizer a ele que parasse de namorar tanto e treinasse mais. Ronaldo me levou à estação férrea e perguntou se eu publicaria aquilo.
Saiu.
Há mais de dez anos, participo de debates esportivos.
Gosto de examinar a evolução tática do futebol.
Há funções que se alteraram completamente.
Tostão, o melhor colunista esportiva do país, escreveu outro dia, na Folha de S. Paulo, que Messi é o centroavante do Barcelona, não um falso centroavante, mas o centroavante de fato.
Tem razão.
O centroavante moderno é aquele que joga, na posição de origem, mais centralizado e mais avançado, tendo a obrigação de fazer os gols. Mas não pode ser rato de área nem estático. Flutua, cai pelos lados, vem de trás, avança, surge onde menos se espera e onde não "deveria" estar".
O centroavante de área, antigo, é um fóssil, um vestígio da era paleolítica do futebol.
No Inter, a maioria tem fracassado. Por que são ruins?
Também. Mas não só.
O time não joga para centroavantes antigos, que exigem bolas vindas da linha de fundo, cruzamentos.
Praticamente todo centroavante antigo era ruim.
O centroavante antigo fazia gols não por ser goleador, mas por ser centroavante.
De tanto estar dentro da área, estatisticamente tinha de fazer gols.
Ainda é assim com os que restam como resquícios de outra era.
Uns faziam mais do que outros obviamente.
Raros com jogadas mais complexas.
Romário foi um deles.
Messi, o centroavante moderno, dribla, passa, lança, move-se, desconcerta, cria.
Zico foi precursor do centroavante moderno num time com centroavantes da época.
Leandro Damião, ontem, contra o São Paulo, fez um gol de centroavante moderno, vindo do lado.
Técnicos modernos não querem centroavantes antigos, salvo quando não há outro jeito.
Por que usar um jogador ruim se é possível ter outro, multifuncional, movediço, articulado, que, além de tudo, faz gols, encanta, cria para os outros, deslumbra e altera o tabuleiro do jogo?
No futebol moderno, goleiro precisa saber jogar com os pés, até driblar, zagueiro deve saber sair jogando, driblar atrás, sem risco excessivo, volante tem de saber chegar na frente e centroavante não pode mais ser um ponto fixo dentro de uma área povoada de grandalhões.
Muriel vem se tornando um goleiro moderno.
Josimar é o típico volante antigo.
Cuca, no Atlético-MG, montou um time mesclado, entre antigo e moderno. Jô, centroavante antigo, foi útil, como Fred foi útil na Seleção Brasileira, mas mais útil foi a mobilidade dos demais, a velocidade de Bernard, a técnica de Ronaldinho, a movimentação de Tardelli, o apoio de Marcos Rocha.
Os analistas costumam se precipitar por obrigação de dizer algo definitivo a cada minuto.
No futebol, um jogador que parece acabado num clube pode brilhar em outro.
Há fases, problemas, questões de motivação, lesões e outros fatores aleatórios.
Cuca mereceu o título.
Conheço-o desde que ele era jogador do Grêmio e eu repórter no clube.
Quando ele e outros três foram acusados de estuprar uma moça na Suíça, o Grêmio mandou um advogado cuidar da liberação de todos. Na volta, antes de se livrarem definitivamente da acusação, ficaram sem receber por algum tempo. Cuca me contou o seu drama. Publiquei uma nota. Um repórter concorrente convenceu Cuca de que eu o havia feito passar por gigolô por ter contado que ele estava vivendo graças ao salário da esposa. Cuca tentou me agredir. Foi impedido. Quando eu ia registrar queixa numa delegacia, chegaram no jornal Cuca e o vice-presidente de futebol do Grêmio. Tivemos uma reunião com o diretor. Em determinado momento, o dirigente falou em tom categórico:
– Cuca, levanta e pede desculpas para o Juremir.
– Não, o senhor, não – grunhiu Cuca.
– Pede desculpas.
– Desculpa, Juremir.
– De agora em diante eu falo e tu jogas, Cuca.
– De agora em diante o senhor fala e eu jogo.
Cena de colégio.
Inesquecível.
Cuca tornou-se um grande treinador. Torci por ele. Mereceu o título.
Ele e Dunga estão, hoje, com Tite, Felipão, Abel e Muricy, entre os melhores treinadores do Brasil.
Os times de Cuca são mais modernos que os de Felipão, Abel e Muricy.
Por fim, Ronaldinho calou todas as bocas e mostrou que continua jogando muito, embora não tenha sido genial nas duas partidas finais. No futebol, é preciso rever conceitos com frequência.
Uma ideia falsa é que o Barcelona joga sem centroavante.
O Barcelona simplesmente tem o melhor centroavante moderno do mundo: Messi.
Atestado por mestre Tostão.