Faz 25 anos que ando pela França. Já vi muito. Nunca verei tudo. Nesse quarto de século, as cadeiras do Jardim de Luxemburgo são as mesmas. Os ônibus também são os verdinhos de sempre. A França gosta da sua imagem e não se preocupa em mudá-la todo o tempo. Daí a raiva dos modernos americanizados.
Capa de livro na França costuma ser o título aplicado sobre uma cor padrão: creme (Gallimard), branco (Minuit). Nos restaurantes, muito pão para franceses magros. Por aqui, o medo do glúten não chegou.
Já vi muito. Posso falar de algumas metamorfoses.
Nos hotéis de duas a quatro estrelas do Quartier Latin se pode sentir a evolução.
Já há muitos banheiros com chuveiro grudado no teto ou em cima. As mãos ficam, enfim, livres para outras tarefas como se ensaboar. Antigamente, lá pelos anos 1990, isso era raridade. Predominava o chuveiro de pegar com uma mão, fazendo acrobacias, para cumprir todas as obrigações do banho.
Houve um tempo em que as estrelas de hotel significavam praticamente isto: uma estrela (banheiro no corredor); duas estrelas (ducha no quarto, vaso no corredor); três estrelas (ducha e vaso no quarto e na mesma peça). Quatro estrelas (ducha e vaso no quarto em ambientes separados). Cinco estrelas: luxo.
A evolução é tão grande que já há banheiros com porta de vidro no box para impedir a molhaçada.
A direção do hotel fez questão de apresentar essa novidade.
O gerente de marketing considera essa peça uma ponte para o futuro.
Sem prejudicar a legislação trabalhista (em perigo por outras razões).
A novidade é boa. Mas isso ainda não se generalizou.
Os hotéis franceses adotaram rapidamente, para padrões internacionais, a internet gratuita para os clientes, envergonhando grandes hotéis do Rio de Janeiro que ainda cobram por uma reles conexão.
Nesse quarto de século, a França manteve suas melhores tradições: beber vinho nas refeições, comer queijo depois do prato principal, foie gras, confit de canard, o mesmo apresentador do jornal das 13 horas na TF1, um tipo meio caipira para agradar a França profunda, e a temporada anual de greves. Ah, Paris!
Que seria de Paris sem suas greves!
Que seria da França sem a defesa do Estado do Bem Estar Social.
Que seria de Paris sem expressões como ras-le-bol e chienlit (procurem no google).
Os parisienses continuam bufando elegantemente, sentindo-se estressados e adorando reclamar de si mesmos. São felizes assim na medida em que é possível ser feliz nesta vida atribulada e mutante.
Nos restaurantes lotados de qualquer bairro, uma grande novidade. A separação entre as mesas, que pode ser inexistente, já alcança em alguns lugares três ou até quatro centímetros. Uma revolução.
As gabardines continuam na moda. As bicicletas de pegar e largar também. Assim como os carros elétricos de carregar em pontos nas calçadas. O metrô continua chegando entre um e cinco minutos.
Sabe-se que nem sempre é assim. Mas se tem estrangeiro esperando o milagre acontece.
Tem sempre muita gente comprando livros certamente só para implicar com brasileiros.
É mais fácil encontrar um livro meu numa livraria de Paris do que numa de Porto Alegre.
Os franceses do interior não perdem a oportunidade de dizer: "Paris não é a França".
Paris é Paris. Como Gre-Nal é Gre-Nal.
Isso diz tudo.
José Serra está em Paris para vender o golpe como impeachment.
Paris, a milenar, não cai nesse tipo de conto do vigário.
Conhece todos os golpes.
Não muda.
Sabe que governo só tem legitimidade quando eleito pelo voto direto para aplicar seu programa.
Até os telhados de Paris sabem que o impeachment brasileiro é um golpe para salvar os políticos da Lava Jato e abrir caminho para a aplicação de um programa liberal que as urnas nunca aprovariam.
Ah, Paris! Tudo tão claro sob o céu chuvoso.