Juremir Machado da Silva

Metamorfoses do amor

Metamorfoses do amor

Disseram-me que o amor está ultrapassado.
Que não passa de um vestígio de uma era romântica suplantada pelo mundo pós-industrial.
Disseram-me que as separações se tornaram normais e que só as pessoas desajustadas ou anacrônicas ainda sofrem por causa disso. Disseram-me que as dores de amor são sintomas de outros problemas psicológicos e que só os fracos ou doentes ainda padecem com isso. Disseram-me que as telenovelas e os filmes de amor são outros resquícios, explorados pela indústria cultural, para ganhar dinheiro com os pobres de alma.
Disseram-me tanta coisa que me assustei.
Eram doutores que falavam. Eram especialistas que discursavam. Eram técnicos que espalhavam dados e estatísticas sobre a mesa. Um deles, num arroubo, citou a crise da poesia, cujos livros encalham nas editoras, como prova da decadência do amor. Outro falou que o amor era uma marca infantil da fase oral ou coisa que o valha.
Todos, enfim, assinaram o atestado de óbito do amor, sem emoção nem piedade.
Houve um até que mostrou um dado curioso: haveria mais grupos de adoradores de pastelina no orkut que de adeptos do amor. Apavorei-me. Amor, explicou outro ainda, com ar blasé e gel nos cabelos, é coisa de velho.
Os jovens, disse, “ficam”.
Em poucas palavras, o amor seria um resto patético do arcaico no universo tecnológico.
Não me convenci.
Contra os doutos, citei Lupicínio Rodrigues: “Esses moços, pobres moços, ah, se eles soubessem o que eu sei...”
Contra os técnicos, invoquei Cartola: “As rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti”. Contra os estatísticos, enumerei revistas, fofocas, livros, textos, vidas, obras, tudo mais: só se fala de amor.
Vivemos para o amor, corremos para o amor, queremos vencer para amar e ser amados.
Riram de mim.
Os mais educados apenas sorriram. Jurei vingança. Prometi demonstrar que estavam errados.
Citei o que sabia de Freud.
Decretaram que Freud tinha sido mal interpretado.
Lembrei-me de Baudelaire.
Não me venha com poetas, menosprezou o que parecia ser o “chefe”.
Bati em retirada.
Três meses depois, ao amanhecer, no bar da rodoviária, que todos os outros já estavam fechados, encontrei justamente o “chefe”. Podia abraçar a Deca de tão bêbado.
Agarrou-me pelo braço e, com seu hálito de uísque, desabafou: “Ela me deixou, a vadia"
Mesmo? – perguntei, condoído com tamanho sofrimento
"Foi embora com o personal trainer e o nosso cachorro” – respondeu, em prantos.
Lamentei.
Tratei de consolá-lo: "Ela vai voltar", disse-lhe.
"Não é ela que me preocupa", confessou, empinando o copo.
Não? É o personal então?
"Qual é, meu? Sou espada".
Pô, cara, não tens um pingo de senso de humor. Desembucha logo – me irritei.
"É o cãozinho."
Compreendi a imensidão da sua dor.