João Doria Jr., vencedor no primeiro turno em São Paulo, encarna o político astuto em tempos de descrença na política: faz de conta que não é político. Todo dia, ele recita o seu mantra: “Não sou político. Sou empresário”. Apadrinhado de político, filhote do governador tucano Geraldo Alckmin, Doria vem cumprindo rigorosamente o percurso de todo político hipermoderno desde sempre: teve cargos de confiança na política e usa o seu capital de mídia para alavancar uma carreira que se pretende técnica. Milionário, Doria usa outro chavão: vai tratar a administração pública como se fosse uma empresa. Sua.
Em Minas Gerais, o ex-goleiro João Leite, dono de seis mandatos, também gosta de bancar o político que não é político. Algum sentido há nessa pantomima? Político, no imaginário social, é o cara que diz uma coisa e faz outra, dribla, finge, joga com a cintura e só pensa mesmo é nos seus interesses pessoais. Política, por exemplo, é a estratégia de semear o terror para aplicar os chamados remédios amargos. Política é a famosa tática de colocar o bode na sala. Fala-se em 70 anos como idade mínima para aposentadoria. A ideia é negociar e fechar em 65. Fala-se em 45 ou 50 anos de tempo mínimo de contribuição para receber o benefício integral da aposentadoria. A ideia é negociar e fechar em 40. Fala-se em rombo de 500 bilhões se o teto dos gastos públicos proposto pelo governo não for aprovado.
Política é a arte de mentir como pretenso mecanismo de transformação social com direito a aplausos de alguma claque. O problema é que o mentiroso acaba mentindo para si mesmo e acreditando na própria mentira a ponto de jurar que sempre disse fielmente a verdade e de não entender a falta de credibilidade que o corrói e condena à condição de espancada Geni (lembram da música de Chico Buarque?). Político mesmo é o político que jura não ser político. Mais do mesmo. PMDB, PP, PSDB e PT vivem sendo lavados a jato. Um, porém, se considera mais limpo do o outro. A lama é sempre alheia. Na república do cinismo dominante, sujo é quem dispara por último.
Certo é que estas eleições revelaram mais um capítulo de repúdio à dita política tradicional corrompida, corruptora, mal-falada e sempre praticada. Alguns candidatos, como Doria, correram para liderar o bloco dos que desprezam a política e por isso mesmo pretendem ser políticos com apoio de velhos caciques da política. Em lugar de criticar os erros da política, despejam fora a política com a água suja da bacia da politicagem. Enganam os incautos (é a palavra que se usa embora ninguém jamais a utilize em outra ocasião).
A mídia paulista, encantada com o discurso antipolítico do colega Doria, deu a esquerda por mortinha da silva. O prefeito petista Fernando Haddad era um cadáver a ser sepultado na marginal do Tietê antes de a velocidade voltar a subir sem autorização dos engarrafamentos. Haddad deu um suspiro antes de apagar-se. O grande vencedor da eleição é o PSDB. O PT saiu fulminado. O PMDB, nas capitais, não encantou.
Temer apenas arruma o ninhos dos tucanos.