Juremir Machado da Silva

Metamorfoses do ser bacana

Metamorfoses do ser bacana

Bacana!

Meu grande sonho na vida é conseguir dizer “bacana”.

Invejo quem consegue, diante de algo legal, exclamar: “Bacana!” Quem fala “bacana” é bacana.

Não confundir com “os bacanas”, rótulo pejorativo de burgueses, mauricinhos, doutores e madames dado pela turma da coréia. Os bacanas moram na Barra da Tijuca e não são bacanas. São novos ou velhos ricos afetados. Bacana é gente fashion, in, meio papo-cabeça, mas não demais, com senso de humor e charme, legal. Carioca diz bacana. Gente bacana mora no Leblon. Adriana Calcanhoto fala bacana.

O pessoal da Casa de Cinema de Porto Alegre diz bacana pelo menos a cada três frases.

É bacana. Kátia Summan, Carlos Gerbase, Luis Augusto Fischer e Peninha dizem “bacana”.

Morro de inveja deles. Quem diz bacana quase sempre anda pelos 50, foi meio hippie, ouviu rock na infância e usa cabelo entre curto e comprido, tímido na resignação ao primeiro e constrangido na nostalgia ao segundo. Mas, a bem da verdade, nem todos. Quem diz bacana lê a Folha de S. Paulo, freqüenta o Santander Cultural, a Padre Chagas, a Livraria Cultura e passa férias em Santa.

Quem diz bacana não fala Santa Catarina, mas Santa, não fala Florianópolis, mas Floripa, não fala Companhia das Letras, mas Companhia. Quem diz bacana, fala Machado, não Machado de Assis; Guimarães, não Guimarães Rosa. Quem diz “bacana” nunca fala “belezura”.

Nei Lisboa diz bacana. Na frente do espelho, soletro: ba-ca-na. Soa estranho. Repito: ba-ca-na. Quase me convenço. Na rua, imagino estar dizendo “bacana”. Só sai “legal”. Quem diz “bacana” descola um monte de gatas bacanas ou de festas muito legais. Um cara que fala “bacana”, quando busca um sinônimo para bacana, diz “muito legal”, que só legal não é bacana, mas, até mesmo, o contrário. Um livro formidável é bacana; um filme genial, muito bacana; um ídolo pop, hiperbacana ou superbacana.

Superbacana é bacana ou estou confundindo por falta de pesquisa de campo mais demorada?

Soa um pouco Jovem Guarda.

Bacana é Bossa Nova. Ou Roberto Carlos legitimado por Caetano.

Nei Lisboa cantando Beatles é muito bacana. Sou muito ressentindo. Não consigo dizer “bacana” com naturalidade. Nunca serei bacana. Para falar “bacana” numa boa, sem parece falso, é preciso dizer também “você”. O Luis Augusto Fischer não passa neste quesito.

Mas continua bacana.

É muito bacana dizer “bacana, tchê!” Mas aí é só para quem é bacana mesmo.

A crônica Bacana! está em meu livro "Para homens na crise dos 40 e mulheres interessadas em compreendrê-los" (Sulina).

Ser bacana exige aualizações constantes.

Nei Lisboa conta nesta segunda-feira no Renascença. Bacana!

Fischer e Giba Assis Brasil estão no Conselhão do Tarso. Bacana!

Ronaldinho foi para o Flamengo.

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