Faz tempo que a literatura mudou. Está mais próximo do chamado mundo da vida.
Espíritos mais conservadores ainda não sabem disso. Alguns se mantém fiéis a José de Alencar. Outros, ainda estão na Semana de Arte Moderna. Enquanto isso, as narrativas mudam. A auto-ficção coloca em cena duplos falsificados dos autores. Michel Houellebecq usa esse artifício desde os seus primeiros romances. Os personagens podem chamar-se Michel e ter pontos em comum com a biografia do autor. O resto é invenção. O leitor fica confuso. Acha que é autobiografia. A italiana Elena Ferrante joga nesse time. Publicou a tetralogia napolitana, cujo primeiro volume, A amiga genial, faz sucesso no mundo. A narradora protagonista chama-se Elena. Mas Elena não se chama Elena. Possivelmente seja o pseudônimo da tradutora Anita Raja. Uma loucura.
Boa parte das metamorfoses da literatura são desconhecidas do público por uma única razão: falta de leitura. No Brasil, a moda é livro de pintar para adultos e obras de youtubers como Kéfera. É fada! O britânico Ian McEwan, que como Houellebecq será palestrante em Porto Alegre no Fronteiras do Pensamento, é um dos escritores mais famosos do mundo atualmente. Ele está lançando Enclausurado, a história de um feto que tenta escapar do contato com o pênis do tio, que lhe raspa o nariz em movimentos incessantes e repugnantes. Imagine, caro leitor, o trauma desse feto vendo sua mãe invadida por um traidor, o cunhado, o irmão do pai dele, em cenas inesquecíveis.
Em entrevista para a Folha de S. Paulo, McEwan, esclareceu: “Uma vez que não posso criar um feto que seja, de forma realista, nada em particular além de um feto, o meu feto é Hamlet, alguém que duvida de si mesmo. Esta é a característica que faz dele um dos mais inteligentes personagens jamais criados na ficção”. Nada a ver com a Pata da gazela. Nada contra. Só que o tempo passou. Sei que alguns não perceberam. O tempo dá muitas voltas. Engana os distraídos. Imagino o feto de uma mulher de esquerda sendo perseguido na sua trincheira por um golpista. Pode acontecer. Um feto petralha sendo atacado por um pênis coxinha favorável à PEC 241 e ao Estado mínimo.
Tudo culpa do Ian McEwan. Segundo ele, a ficção não tem limites.
O leitor é que tem. Nem sempre sai do seu cercadinho doméstico. Numa disputa entre Millôr Fernandes e Lima Barreto para escritor homenageado da Flip, o evento literário queridinho da mídia, por ser território da mimada editora Companhia das Letras, deu Millôr. Aí fica difícil. Millôr foi bom durante a ditadura e medíocre no fim da carreira. Lima Barreto foi um gênio. Permanece como um dos mais injustiçados escritores brasileiros.
Talvez venha a ser homenageado pela Flip em 2017, pois a nova curadora da festa é fã dele. Só assim.
Houve um tempo em que o leitor esperava mensagens de livros de ficção. Hoje, basta que sejam boas distrações. O leitor sem preconceitos quer duas coisas: diferença e fantasia. Ian McEwan apostou num feto shakespeariano. Claro que a sua vibe, cutucado por um pênis traíra, é esta: nascer ou não nascer, eis a questão. Uau!
Literatura é tentar agarrar a vida em pleno salto sobre a poça d"água.
Parece fácil.
Tão fácil quanto cair de bunda.