Meus parceiros de resistência cultural

Meus parceiros de resistência cultural

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Já disse aqui, com modesta megalomania, que sou um Lima Barreto branco. Sempre andando na margem. Só que aprendi com Lima e com meu corpo. Lima adorava uma cachaça. Eu gostava de vinho. Lima parou no hospício. Quando vi que vinho era álcool e que álcool pode ser um caminho para a loucura, larguei. Lima Barreto vivia às turras com a mídia hegemônica do seu tempo. Mas tinha suas trincheiras. Eu também. Lima construiu a sua rede de resistência. Eu tenho uma rede espontânea de parceiros. Quando publico um livro, meus parceiros entram em ação com generosidade e alegria.

Cometerei injustiças ao citar só alguns, pois não teria como listar todos. Durante muito tempo, em Ijuí, tive um grande parceiro, o professor Larri. Sempre que podia, ele me convidava para uma palestra. Na minha terra natal, em Santana do Livramento, Antônio Carlos Valente está sempre pronto para me colocar em cena. É palestra, autógrafos, entrevistas nos jornais e nas rádios. Em Passo Fundo, tenho um grande parceiro, o professor José Ernani. Todo livro meu é difundido por ele. Serviço completíssimo. Ernani, como eu, ama a MPB. Corre de Passo Fundo a Porto Alegre para ouvir os grandes da nossa canção. De vez em quando, a gente se encontra em shows. É mais um elo. Em Caxias, tem as meninas da Rose Brogliato. Em Camaquã, a Roberta. Em Santa Maria, meu velho amigo Bebeto Badke.

Em Erechim, o doutor Alcides Stumpf.

Meus livros chegam a várias edições graças a esses agitadores amigos. Tem livro meu alcançando a décima tiragem. Até o final do ano tenho mais de 30 eventos marcados. Recuso cinco por dia por falta de agenda. Sou um escritor do meu país, o Rio Grande do Sul. Vez ou outra, vou ao Brasil. Falo em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Prefiro, contudo, ir ao Brasil nas férias. O melhor do Brasil são as praias do Nordeste. O pior do Brasil é o provincianismo da mídia carioca e paulista. Escritores brasileiros muito conhecidos em São Paulo e no Rio de Janeiro costumam ser ignorados na Colômbia ou na Guatemala. Por que eu, escritor do Rio Grande do Sul, deveria ser admitido no Brasil?

O Rio Grande do Sul me basta. É verdade que, por vaidade, volto e meia me incomodo com a discriminação brasileira. Conheço escritores gaúchos que sofrem com isso, mas elegantemente não o confessam. Eu não. Adoro um barraco. Na Feira do Livro de Porto Alegre há momentos de vingança. Longas filas para escritores gaúchos. Ninguém para certas celebridades brasileiras. Claro, tem os midiáticos, que não contam, pois são autores, não escritores. Quem o gaúcho prefere? Luiz Antonio de Assis Brasil ou Marcelino Freire (sabe quem é?)? Sérgio Faraco ou Luiz Ruffato? Esse pessoal do Brasil ganha prêmios autoconcedidos, mas não leitores. Pega boquinha em eventos internacionais. Nada muda.

A imprensa de Rio e São Paulo chafurda no bairrismo, que confunde com cosmopolitismo.

Come na mão dos que lhe produzem deslumbramento.

Ejacula quando ouve o nome Companhia das Letras.

Sussurra: "Companhia..." E goza.

Acha que quem percebe isso é ressentido.

Acredita que é muito difícil fazer programas como o do Pedro Bial.

Uma imensa equipe para trazer os caras de sempre e fazer as perguntas de sempre preparadas pelos produtores. Bial deve passar os dias coçando os joelhos. Enfim, apenas um exemplo.

Pierre Bourdieu chamava isso de sistema de conivência.

Resta a guerrilha.

Provocar o confronto lá onde ele está interditado pelo rótulo do despeito.

Quem falar será chamado de despeitado.

Ou fuzilado com uma crítica devastadora.

Ou consolado por leitores com palavras condescendentes do tipo "você vai conseguir".

Lima Barreto chutava o balde. Eu também. Nunca gostei da pose de grande senhor das letras de Machado de Assis. Lima não se deixou branquear. Eu tento ser um negro da literatura. Negro por admiração. Um branco escrevendo à margem das panelinhas dominantes. Meu livro “Raízes do conservadorismo brasileiro: a abolição na imprensa e no imaginário social”, boicotado pela mídia carioca e paulista, está na segunda edição apenas dois meses depois do lançamento. Brindemos.

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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895