Mexicanos marrentos na hora de dar visto
Olá, Juremir!
Sou leitora da tua coluna e te escrevo hoje para compartilhar uma história.
Há um ano, eu e meu noivo decidimos fazer uma viagem para Cancun. Queríamos nos casar, mas como não tínhamos dinheiro para fazer uma grande festa, preferimos antecipar a lua de mel. Escolhemos o pacote e deixamos tudo pago por volta de setembro/2009. A agente de viagens nos disse que era necessário fazer visto para entrar no México, e por isso agendamos uma entrevista no consulado mexicano de Porto Alegre. Como somos do interior, agendamos folga nos respectivos trabalhos, programamos a viagem, etc. Na época, eu era universitária e trabalhava 20h semanais dando aulas de inglês. O salário era baixo, obviamente, mas ajudava a pagar as despesas; meu pai ainda me ajudava financeiramente.
No site do consulado, havia alguns requisitos para a obtenção do visto; documentos gerais (comprovante de endereço, identidade, CPF, etc.), assim como contracheque e extrato bancário dos últimos 3 meses. Separamos tudo e lá fomos.
Não me recordo do dia exato da entrevista, mas creio que foi em meados de outubro. Chegamos ao consulado e retiramos fichas de espera individuais. Meu noivo foi chamado antes; ele mostrou toda a documentação e em dois minutos recebeu o visto, nem foi entrevistado. Na minha vez, a funcionária olhou rapidamente a documentação e fez uma cara estranha, do tipo “isso não vai dar certo”. Em seguida, me encaminhou para a entrevista com o cônsul.
O cônsul, o senhor Alberto Acosta Trevino, me recebeu muito educadamente; um senhor distinto e extremamente educado. Foi com muita educação que ele disse que meu visto seria negado porque eu não tinha condições financeiras de ir a Cancun. Meu salário não era compatível com a viagem e com os gastos que eu lá teria. Fiquei tão chocada com a notícia que não consegui falar nada, apenas chorei. Disse a ele que a viagem estava paga, hotel all-inclusive, passagem, tudo. Não conseguia entender. Pensei que tinha a ver com o fato de o México ser uma porta para os EUA, e isso poderia implicar uma possível tentativa de entrada ilegal no país. Mas Cancun é muito longe da fronteira, sem falar que eu vivia com meu noivo, tínhamos uma certidão de união estável (que legalmente tem o mesmo valor jurídico que o casamento), eu era universitária, com endereço fixo e emprego com carteira assinada... que risco eu poderia apresentar?
Ele me perguntou como eu estava fazendo aquela viagem se não tinha dinheiro. Respondi que tinha economizado bastante, o que era possível porque meu pai ainda me ajudava financeiramente, e que meu noivo tinha arcado com a maior parcela da viagem. Ele disse que se eu trouxesse os contracheques do meu pai, poderia receber o visto. Bem, viajei 500km para fazer a entrevista e não posso ir e voltar de novo, no meio da semana, para trazer um contracheque. Me disse então que meu pai mandasse por fax; meu pai é médico e trabalha o dia todo; como vou pedir pra ele largar tudo e resolver o meu problema?
Por fim, ele disse que se eu fosse casada não haveria problema, pois meu noivo ganhava o suficiente por nós dois. Falei da certidão de união estável, que legalmente tinha o mesmo valor, mas para ele não serviu. Se desculpou e pediu que eu me retirasse; me deu seu cartão caso eu conseguisse algum novo documento até às 17h – quando o consulado fecharia.
Saí da sala arrasada, soluçando. Todos que esperavam pela entrevista ficaram assustados, e meu noivo mais ainda. Não sei dizer exatamente porque me senti tão mal, mas acho que a humilhação era motivo suficiente. Ser rejeitada por um país vizinho ao nosso, com condições de vida muito piores, porque aos 24 anos não tinha um salário minimamente aceitável.
Quando consegui contar para meu noivo o que sucedera, ele se indignou, principalmente porque o cônsul não aceitou a certidão de união estável como válida (ele é advogado). Fomos embora e tentamos pensar no que fazer.
Meu noivo decidiu ligar para o cônsul. Ligou e conversaram por alguns minutos; ele tentou explicar a validade da certidão, mas ele não aceitava. Quando meu noivo falou que era advogado e ameaçou processá-lo, ele disse que me daria o visto de fôssemos ao cartório fizéssemos uma escritura pública de união estável. Novamente, insistimos no fato de que ambas as certidões tinham o mesmo valor legal, quer era totalmente desnecessário, mas foi a condição que ele “inventou” para liberação do visto.
Fomos ao cartório e nos informaram que essa escritura ficava pronta em dois dias. Ótimo. Era meio dia e tínhamos até o fim da tarde. Conversamos com os funcionários, explicamos a situação e eles gentilmente concordaram em fazer no mesmo dia.
Resumindo, gastamos uns R$60,00 de novo com uma nova certidão e saímos voando para chegar a tempo no consulado. Eles nem olharam o documento que eu apresentei, o visto já estava pronto.
Te escrevi isso, Juremir, porque achei um absurdo o tratamento que recebi no consulado mexicano. Eu ia escrever para o jornal na época, pensei em denunciar o tratamento recebido, mas moro numa cidade pequena e não quis me expor; não tive ânimo. A humilhação foi tão grande que a única coisa que eu queria era esquecer o que tinha acontecido.
Não acho inaceitável que eles exijam um valor mínimo de salário ou rendas para que turistas entrem no país, mas isso precisa ser explícito; deveria constar nos requisitos para obtenção do visto. Em nenhum momento eles dizem que é preciso ter uma renda mínima. Ingenuamente, pensei que os contracheques e extratos eram para provar vida e emprego estáveis no país. Se isso estivesse escrito lá, eu teria pedido os contracheques do meu pai sem problemas. Não teria me afetado em nada. Eu era estudante, pelo amor de Deus. Mas me fazer passar pela humilhação que passei, na frente de dezenas de pessoas dentro daquele consulado, isso não tem quem pague. E se uma pessoa ganha pouco e economiza durante anos para fazer uma viagem? Ela não vai ter permissão? Que discriminação é essa?
Acabamos fazendo a viagem porque ia ser muito custoso trocar as passagens e o hotel. Hoje sou formada, passei num concurso público e tenho um salário razoável, mas não volto para o México por nada. Vou para a República Dominicana, qualquer lugar. Lá, nunca mais. Talvez você ache a história boba ou não entenda o porquê do alarde, mas foi marcante pra mim. Sei que as pessoas morrem de fome, mas ainda assim acho que o ocorrido não pode ser desconsiderado. Queria que as pessoas soubessem que essas coisas acontecessem, e que a diplomacia mexicana não é tão diplomática assim. Espero que o tema te interesse e que você escreva algo sobre o assunto um dia. Eu ainda não tenho ego suficiente para compartilhar essa história em nome próprio.
Obrigada!
Júlia