Juremir Machado da Silva

Michel Houellebecq, o maldito que venceu

Michel Houellebecq, o maldito que venceu

Maldito coroado

Michel Houellebecq chegou lá. O mais maldito dos escritores atuais ganhou o Prêmio Goncourt por seu livro “O mapa e o território”. Ele já deveria ter recebido essa distinção por “Extensão do domínio da luta”, “Partículas elementares”, “Plataforma” e “A possibilidade de uma ilha”. Não levou antes por ser irreverente e provocador demais. O Goncourt é um prêmio muito prestigiado. Jean-Paul Sartre dizia que o Goncourt era mais importante do que o Nobel, que ele recusou. Albert Camus, que aceitou o Nobel, considerava o Goncourt o mais importante prêmio literário europeu depois justamente do prêmio dado pela academia sueca. Houellebecq é o melhor escritor do mundo no seu gênero, o da ironia radical, impiedosa, selvagem e feroz.
Eu introduzi Houellebecq no Brasil, pela Sulina, graças ao interesse de Luís Gomes, que tem sofisticação e faro para a grande literatura, quando nenhuma grande editora brasileira o conhecia. Hoje, é disputado pelas megas. Intermediei a vinda de Michel duas vezes a Porto Alegre. Fizemos, Cláudia, ele e eu, uma viagem, em 2007 à Patagônia. Dessa aventura, nasceu uma narrativa, “Um escritor no fim do mundo”, que devo publicar em 2011. Adoro fazer frases pernósticas assim: o Brasil ainda não está preparado para escritores como Houellebecq e eu. Menos ainda para escritores como eu, mais maldito e duro do que Michel. Na França, um maldito, depois de alguma perseguição, chega ao cume. Aqui, ainda estamos na fase de atribuir o Cágado a Chico Buarque. Continuamos confundindo celebridade num campo com talento em todos os outros.
Não admiramos o talento, mas o sucesso. Pedi à Sulina para colocar “Partículas elementares” em promoção. Fui atendido. O livro está disponível na Feira com 40% de desconto. Por que fiz isso? Porque fazemos guerra de guerrilha. Quero aproveitar a oportunidade para inocular Houellebecq na veia dos nossos leitores. Desejo provocar uma overdose de ironia. Cada exemplar da minha Trilogia de Palomas está a R$ 10 no balaio da Sulina. Dantec já foi. Houellebecq e eu estamos na trincheira. É literatura com as tripas de fora. Nada de frases floreadas, de imagens Paulinas ou de escrita subjetiva. Narrativa com cheiro. Muita gente não entende. Reclama. Ainda bem. Literatura precisa provocar vômito, convulsões e também, em doses homeopáticas, doces emoções. Houellebecq é Paul Auster com vísceras. No Brasil, além de mim, ninguém chega nem perto.
Estou modesto hoje. Muito mais que de costume. Afinal, não é todo dia que um maldito se dá bem. Quem ganha o Goncourt, vende, no mínimo, 200 mil exemplares do livro premiado. No Brasil, quem ganha o Cágado, continua atolado. É verdade que, para vencer o Goncourt, Houellebecq fez um livro mais comedido e suave. Tirou um pouquinho o pé do acelerador polêmico. Quem não leu “Partículas elementares” continua vivendo na pré-história da literatura irônica, assim como que não leu “A trilogia de Palomas” e “Solo” desconhece o fundo do poço e a maldição da maldição. Nós, os malditos, nos amamos e somos, acima de tudo, modestos.