E assim, em sangue, lágrimas e dores, acabam-se as ditaduras. Não de uma hora para outra. Lentamente. O Chile foi às urnas no final de semana para escolher a assembleia paritária – metade homens, metade mulheres – que redigirá a Constituição para enterrar a carta do regime nefasto de Augusto Pinochet, cantado em prosa e verso pelos cínicos do continente. Só agora o regime assassino pinochetista dará o último suspiro. Durante muito tempo, neoliberais louvaram o milagre chileno, a sociedade economicamente perfeita com Estado mínimo e desenvolvimento máximo. A catástrofe política, com tortura, mortes e desaparecidos, era uma vírgula, uma nota de rodapé a ser relativizada. Independentes, esquerda e indígenas levaram a melhor no pleito.
Hoje se sabe que o milagre chileno era uma fraude com um preço elevado: um fosso de desigualdade. Como disse uma senhora chilena entrevistada na televisão, é preciso se endividar para estudar, ter acesso à saúde, morar. Não existe almoço grátis. Salvo para os militares chilenos, que conservaram suas gordas aposentadorias estatais enquanto tudo mais era privatizado. As aposentadorias por capitalização têm produzido idosos miseráveis e suicídios. Desde o ano passado que a população diz basta. Ao jornal francês Le Monde, Claudio Fuentes, professor da Ciências Políticas na Universidade Diego, mostrou o óbvio: “Parte da população vê na adoção de uma nova Constituição a possibilidade de mudar as regras do jogo: obter melhores condições de vida e ter acesso mais igualitário a direitos como aposentadoria, saúde, educação”. A magia chilena esqueceu disso.
Não fossem os seres humanos, com suas necessidade, debilidades e anseios, a economia funcionaria tão bem, especialmente seguindo as precisas orientações da Escola de Chicago. Os militares chilenos adotaram um lema precioso: privatização para todos, menos para eles. Por que mesmo? Como estatísticas dependem de recortes sob medida, sempre tem alguém para supostamente provar com dados que o Chile vai muito bem e está sendo mal-interpretado por esquerdistas e preguiçosos. Conta-se que um general chileno encontrou um desempregado chorando à porta de um quartel. Gélido, o militar dirigiu-se ao homem:
– Por que choras?
– Porque o Estado não me protege como ao senhor.
Teria sido preso. Era o desespero. Os apologistas do modelo chileno entoam: o Chile tem o maior PIB per capita da América Latina; os estudantes chegam em primeiro lugar no PISA; o Chile tem estabilidade econômica e segurança jurídica. As ruas moem os indicadores gelados e mostram a fervura da realidade. Há pior? Evidentemente. Os chilenos não querem consolações comparativas, mas vida melhor. Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia, deu um belo toque quando a chiadeira começou: “O Chile é um dos países que sempre se destacou nas estatísticas da OCDE com um dos mais altos níveis de desigualdade”. Disse mais: “O PIB é bom, mas não reflete o que os cidadãos comuns vivenciam, não reflete a insegurança, que é uma parte tão importante do bem-estar (...) PIB não mede se o crescimento é sustentável”. O mundo real costuma não caber na moldura das teorias.