Juremir Machado da Silva

Minhã paixão pela Gal

Cantora tem voz de cristal

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Live da Gal

 

      Vi a live da Gal Costa e pensei como na primeira vez que a ouvi: que voz maravilhosa! Parece um cristal. Até hoje não sei a razão de sempre pensar em cristal quando ouço a Gal. E ouço muito. É uma metáfora válida. Não perco tempo me explicando metáforas. Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Gal Costa fazem parte do imaginário de gente como eu. Noutra linha tem Vinícius, Tom Jobim, Elis. Noutra, Roberto Carlos. Há uma só para Belchior. Fazer parte do imaginário significa muito, quase tudo. Quero dizer que são a música de fundo, a trilha sonora de uma vida como a minha.

      Sempre que algo me divide, ouço Gal cantando com a sua voz de cristal: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Quando a situação exige certa ironia, ouço mentalmente a mesma sabedoria, só que na voz de Caetano. Dom de iludir! Eu tenho esse dom. Creio que todos têm. O meu dom de iludir só funciona comigo. É ele que me salva. Quando desanimo, o que ocorre com frequência, ouço Gal cantando
“Oh, sim! Eu estou tão cansado, mas não o bastante pra dizer que eu não acredito mais em você”. Por vezes, eu me vejo nesse “vapor barato” com “minhas calças vermelhas, meu casaco de general, cheio de anéis”.

      Ou cheio de dedos. A voz da Gal não envelhece. Ressoa como um sino numa catedral gótica. Sim, eu me deixo arrastar por imagens grandiloquentes. Gal canta Wally Salomão, Caetano, Chico e tantos outros poetas que me emocionam. Até Vladimir Maiakovski adaptado e musicado por Caetano Veloso: “Ressuscita-me lutando contra as misérias do cotidiano”. Aí paro e penso: por que essa voz me embriaga? A resposta é cristalina: porque embriaga muito gente. Sou só mais um. Mas por que mesmo tenho a convicção, ao ouvir Gal, de que “o amor é um grande laço, um passo pr'uma armadilha, um lobo correndo em círculo
Pra alimentar a matilha”? Na voz do compositor, Djavan, eu hesito.

      Um espírito mais ágil dirá: cara, você é fã da Gal. Pronto. Ou diria: cara, tu és fã da Gal. Não pira. Ou seria: cara, tu é fã da Gal. Fala sério. Não viaja! Não tem como: eu viajo, deliro, escapo, nunca estou onde me esperam, pois também não me espero no mesmo lugar. Ao ver a live da Gal, tive um momento de tristeza: não é mais necessário sair de casa para ir a um show. Nem para caminhar. Posso deturpar essa letra que admiro, pois sinto que está faltando um pedaço, a vida em casa “tanto engorda quanto mata, feito desgosto de filha”. Estou, porém, feliz, vendo lives. Gal mora em São Paulo. Como pode alguém sem limitações de tempo e dinheiro querer viver em São Paulo? Aí, ouço Elis Regina: “Eu quero uma casa no campo”. Sempre.

A voz da Gal me faz refletir: como se perde tempo na vida com coisas insignificantes. Se eu soubesse cantar ou tocar um instrumento, musicaria o mundo. A primeira vez que eu ouvi a voz de Gal Costa eu era obviamente adolescente.

Era uma voz que rompia a barreira do meu universo. Era numa fita cassete de uma colega do curso de magistério, que parecia uma cópia da Bethania. Nunca mais a vi. Gal é um cristal.