Morreu o cantor Wando.
Ele era muito brega.
Eu também sou.
A breguice de Wando era o romantismo meloso.
As calcinhas perfumadas distribuídas nos shows.
Assim como as rosas do rei Roberto Carlos.
Pode haver algo mais brega do que ser o "rei"?
Wando era maravilhosamente brega.
Lembro-me de uma manhã, há 30 anos, quando, estudante errante, acordei na casa de um amigo e, desesperado para saber a hora, liguei o rádio e começou a tocar Wando.
O dono da casa apareceu e me botou para fora:
– Na minha casa ninguém escuta Wando.
Eu podia ter explicado, mas não quis.
Fui embora com Wando no coração.
Eu escutava "Moça" e gostava.
Ainda gosto.
Wando era o Michel Teló com sentimento.
Isso mesmo.
Brega com sentimento eu aprovo.
Sou sensível.
Wando também era.
Todos nós, ouvinte de coisas sofisticadas, ouvimos Wando e outros equivalentes quando estamos descornados ou, então, perdemos a oportunidade de experimentar uma boa fossa.
Wando era do também em que se dizia fossa.
E se toma uísque com guaraná.
Wando era dez.
A breguice autêntica, pura, sentida, sofrida.
Não era apenas a breguice da indústria cultural.
Estou de luto por Wando.
Fica aqui a letra da sua canção maior.
Moça
Moça me espere amanhã levo o meu coração pronto pra te entregar
Moça, moça eu te prometo eu me viro do avesso, só pra te abraçar
Moça eu sei que já não é pura, teu passado é tão forte pode até machucar
Moça, dobre as mangas do tempo jogue o teu sentimento todo em minhas mãos
Eu quero me enrolar nos teus cabelos
abraçar teu corpo inteiro, morrer de amor, de amor me perder