Juremir Machado da Silva

Minha primeira Feira do Livro de Porto Alegre

Foi em 1980. Eu havia chegado de Santana do Livramento, aos 17 anos de idade, em janeiro daquele ano. Andava meio assustado pelas ruas de Porto Alegre. Tinha pouquíssimo dinheiro, muitas ilusões, vários sonhos e uma certeza: ganharia o jogo. Seria jornalista e escritor. Pegar o ônibus era uma aventura. Precisava descer sem pagar. Eram duas as possibilidades: convencer o cobrador ou descer pela porta de trás, por onde se subia na época, sem ser pego. Fui à Feira do Livro, na praça da Alfândega, com o coração apertado. Não teria como comprar um só livro. Também não conhecia ninguém na área.

– Que loucura! – foi tudo que encontrei para dizer ao chegar.

A primeira visão da Feira, num domingo à tarde, foi avassaladora. Eu nunca tinha visto tanta gente – salvo no meu primeiro Gre-Nal no Beira-Rio, reunida num mesmo lugar. Passou um homem com um séquito atrás dele. Eu me espremi para tentar ver.

– Mário, Mário, tenho algo para ti...

– Desde que não seja um poema – respondeu o homenzinho.

Era o famoso Quintana. Não me lembro de muita coisa. A confusão era tanta na minha cabeça que me perdi da colega de faculdade com quem tinha ido desbravar o desconhecido. Fiquei com cara de cachorro que caiu do caminhão. A noite chegou e fui me esgueirando na direção do terminal de ônibus. Tinha de voltar para o Sarandi, onde morava. Perdi o sono. Como faria para ler todos os livros da Feira? Achava que era fundamental para o meu futuro. Decidi explorar a biblioteca da PUC. Fiz uma conta numa livraria. Fiquei inadimplente. Era assim que estava escrito no papel que recebi cobrando a conta. O dono me perdoou. Sabia que era por amor aos livros. Quanta coisa esqueci.

– Ainda tem os livros? – ele me perguntou, na rua, 20 anos depois.

Também não me lembro do resultado do meu primeiro Gre-Nal. Eu já poderia ter pesquisado sobre isso, mas prefiro continuar em meio a esse nevoeiro. Por quê? Não sei. Não tenho explicações para tudo. Gosto de me perder no passado. Tenho é saudades daquela época. Foi uma das mais felizes da minha vida. Eu nada tinha, tudo esperava e pouco me abalava com algo. A vida fluía deliciosamente. Era só uma questão de ter paciência. Eu esperava o amor, a fama e a riqueza. Pouca coisa. Aquela primeira Feira me acendeu uma luz: precisava me apressar um pouco. Havia muito o que ler antes de começar a escrever. Fiquei um tempão namorando um volume de “As flores do mal”, que só adquiriria anos depois, e um livro de Hélio Silva sobre a Era Vargas.

– Até que tem pouca gente hoje – disse minha colega.

– Pouca gente? Parecem ovelhas amontoados.

Um colega de faculdade me deu, algum tempo depois, o grosso volume do historiador uruguaio René Armand Dreifuss, “1964: a conquista do Estado”. Meus caminhos estavam definidos. Já pensei nessa primeira Feira com outras versões. Sou infiel ao passado.

– Vou ali e já volto – falou a colega.

Nunca voltou.