Minha resposta ao colega Felipe Vieira na polêmica do Beira-Rio
Não posso deixar de responder ao meu dileto colega Felipe Vieira.
São muitos interessantes os seus argumentos.
Sempre me interesso muito por argumentos.
Felipe é um excelente jornalista e um ótimo argumentador.
Mas há um tom condescendente no seu texto.
Tipo: ele está a par de tudo e eu de nada.
Sugiro que diga o mesmo para Mário Sérgio Martins, Vitório Piffero, Pedro Affatato, Kenny Braga, Ibsen Pinheiro e outros.
Sugiro, por outro lado, que investigue bem o déficit zero, que não fique só na inclinação ideológica ou na amizade.
Sugiro que ouça também outros lados, pois sempre há muitos lados, como sabem os jornalistas.
Felipe sugere que minha visão é deturpada por ideologia.
Toda visão é ideológica.
Mas se ele quer dizer que deturpo os fatos conscientemente para adaptá-los a uma ideologia, devo dizer que não tenho ideologia nesse sentido. Não sou de esquerda. Não sou de direita. Ao longo da minha vida de jornalista já critiquei direita e esquerda e fui perseguido e insultado por esses dois lados. Não tenho partido. Não me filio. Permaneço livre.
Não ser de esquerda para mim significa, antes de tudo, não cair no colo da direita.
Sugiro ao Felipe o que ele me sugere: cuidado com o ideologismo.
Em todo caso, eu estava falando da ideologia de Aod como sistema de ideias, mentalidade, visão de mundo, não como uma viseira, um tapa-olho ou um encobrimento desonesto da "realidade".
Felipe afirma que não devo ter lido algumas colunas do Hiltor Mombach.
Impossível.
Eu não perco o Hiltor, pois ele é brilhante, inteligente, irônico, crítico, aberto, bem-informado e agudo.
Acho que Felipe não leu a coluna do Hiltor na qual Mário Sérgio Martins diz o que está inflado.
É só pegar no site do Correio do Povo, link Edições Anteriores.
Que o Inter tem déficit até as corujas sabem.
Que o déficit começou antes do Aod chegar até quero-quero sabe.
Mas que o Aod influenciou na guinada do Luigi para a parceria com empreiteira até vira-lata como eu sabe.
Aod é a favor dessa parceria. Acredita nela. É seu direito. Sabe argumentar. Tem nome. Usa.
O jogo da vida pública é assim: para se atingir determinado fim, monta-se um cenário.
No caso, um cenário do terror.
O requinte da obra é o seguinte: não dá mais para recuar.
O Inter não poderia fazer como o São Paulo. A obra já começou.
Só restaria o colinho da Andrade Gutierrez.
Por que a Andrade Gutierrez?
Por que não outra? Por que não uma concorrência aberta pelo melhor projeto?
A Engevix, uma das maiores empresas do ramo, que está construindo o polo naval de Rio Grande, ofereceu-se para fazer a obra. Ficaria muito mais barato. O Inter nada entregaria do seu patrimônio presente ou futuro.
Fonte fidedigna, das entranhas do Inter, me garante que o Inter pediu a Engevix uma carta assegurando que não entrará na disputa. Por quê? Oh., por quê? Por que mesmo?
Felipe Vieira sabe que a lei me dá o direito de não revelar a fonte.
A mesma fonte me disse: Se Aod Cunha fosse presidente do Inter na época, o Beira-Rio não existiria, pois é o resultado de uma paixão, não da lógica dos negócios.
A mesma fonte me afirmou que o terrorismo – se não tiver parceria a Copa vai para o Grêmio – está sendo praticado dentro do Beira-Rio com força máxima.
Sim, o Inter ainda pode desistir.
Sim, o Inter teria condições de reparar o que foi feito até agora.
Sim, o Inter poderia tocar a obra mais lentamente.
Se desistisse da Copa do Mundo.
Acontece que ninguém quer essa desistência.
Para a imprensa seria um desastre.
É preciso que o Inter se atire na água.
Aí vale pressão, cotovelada, desqualificação do oponente.
Felipe Vieira, claro, elegante, não faz isso.
Mas há quem faça. A chantagem emocional faz parte da guerra psicológica.
Sim, segundo vários colorados ilustres, como Affetato, Piffero, Martins e Ibsen Pinheiro, o Inter ainda pode tocar a obra, receber a Copa e manter a independência do seu patrimônio. Será que eles sabem menos do que o Felipe sobre o Inter?
Será que Felipe está sugerindo que eles estão agindo por interesse não explicitado?
Ibsen Pinheiro, colorado histórico, dá outras alternativas: mobilizar força político para que o Estado do Rio Grande do Sul dê as garantias necessárias ao BNDES. Não pode? Pode. Pode-se inclusive levar o BNDES a aceitar o Beira-Rio como garantia. Será que o pessoal não quer que isso aconteça?
Ibsen fulmina: o governador do Paraná fez aprovar lei que permite a organismos do Estado dar às garantias necessárias para as obras em Curitiba. Sabias disso, Felipe?
Outra ideia de Ibsen: uma espécie de empréstimo consignado. O Banrisul banca parte das garantias e fica garantido pelo fato de que é patrocinador. Se não receber, não paga.
Se cair no colo da Andrade Gutierrez, que se autodesignou para a obra, pois essas empresas fazem cartel e não entram no território da outra, terá de entregar os 40 milhões que tem acumulado para o empreendimento.
A empreiteira fica com 100% do faturamento das áreas vips. Ibsen pergunta: por que não, por exemplo, 60%?
E explica: se fechar com a Andrade Gutierrez, o Inter terá 40 datas para jogar por ano no Beira-Rio.
Se precisar de mais? Terá de pedir licença para a Andrade Gutierrez.
Enfim, não, não me associarei ao Inter.
Como Groucho Marx, não entro num clube capaz de me aceitar.
Para Academia Brasileira de Letras, indico o poeta Luiz de Miranda, o cronista Verissimo, o romancista Assis Brasil.
Para o Nobel da Literatura, Aod Cunha, o maior ficcionista do Rio Grande do Sul.