Juremir Machado da Silva

Minha sessão de autógrafos na Feira

Vamos falar de escravidão e preconceito na Feira do Livro de Porto Alegre?

Vamos.

Neste domingo, 16h30, Jorge Euzébio Assumpção e eu, na sala Barbosa Lessa, no Centro Cultural Erico Verissimo, trataremos de nossas obras sobre a escravidão.

A esplêndida Glau Barros cantará.

Um luxo!

Um branco entre dois negros. Às 18h30, autografarei meu livro “Raízes do conservadorismo brasileiro: a abolição na imprensa e no imaginário social” (Civilização Brasileira”, de onde tirei o fragmento sobre José de Alencar que complementa esta abertura. Se a obra deve ser lida, o autor também deve ser conhecido. Se a obra está viva, a biografia do autor deve ser ressuscitada.

Meu livro vai para a terceira edição quatro meses depois do lançamento.

Estou preparado para autografar uns três exemplares.

Tenho 27 leitores.

Consta que poderei chegar a 29 em 2018.

Mas são meras projeções otimistas.



Clássico do escravagismo

“Todas as repúblicas abolicionistas foram dilaceradas pela anarquia: enquanto o Brasil se organizava com uma prudência e circunspeção admirável”. A prudência teria de respeitar um princípio: “Como todas as instituições sociais que tem radicação profunda na história do mundo e se prendem à natureza humana, a escravidão não se extingue por ato do poder; e sim pela caduquice moral, pela revolução lenta e soturna das ideias. É preciso que seque a raiz, para faltar às ideias a seiva nutritiva”. Cabia, no entender do romântico pragmático José de Alencar, aos escravos saber esperar trabalhando para seus donos.

De graça. Aos abolicionistas por princípio, José de Alencar reservava ironias que, ao longo do tempo, só mudariam de objetos: “O filantropo europeu, entre a fumaça do bom tabaco de Havana e da taça do excelente café do Brasil, se enleva em suas utopias humanitárias e arroja contra estes países um aluvião de injúrias pelo ato de manterem o trabalho servil. Mas por que não repele o moralista com asco estes frutos do braço africano? Em sua teoria, a bebida aromática, a especiaria, o açúcar e o delicioso tabaco são o sangue e a medula do escravo. Não obstante, ele os saboreia. Sua filantropia não suporta esse pequeno sacrifício de um gozo requintado; e, contudo, exige dos países produtores que, em homenagem à utopia, arruínem sua indústria e ameacem a sociedade de uma sublevação. Neles desculpa-se. É fácil e cômoda a filantropia que se fabrica em gabinete elegante, longe dos acontecimentos e fora do alcance da catástrofe por ventura suscitada pela imprudente reforma”. Não faz pensar nos insultos da direita do século XXI aos comunistas de classe média ou aos artistas ricos e bem-sucedidos como Chico Buarque? Só faltava algo do gênero: “Vai para Paris, abolicionista caviar!”

José de Alencar via com a clarividência opaca dos convertidos o que ninguém desinteressado enxergava. Como em alguns dos seus livros, idealizava personagens, adulterava realidades, inventava mundos, deformava situações, mentia para si mesmo e, principalmente, para os leitores: “Pode-se afirmar que não temos já a verdadeira escravidão, porém um simples usufruto da liberdade, ou talvez uma locação de serviços contratados implicitamente entre o senhor e o Estado como tutor do incapaz”. O senhor de escravos era apenas um usufrutuário dos seus bens humanos semoventes, um pobre produtor abnegado? Era o escravizado que ganhava: “A raça africana tem apenas três séculos e meio de cativeiro. Qual foi a raça europeia que fez nesse prazo curto a sua educação?” Alencar foi um grande escritor romântico. Não consta que tenha sido humorista. Certamente ele não merece estátua em qualquer país africano: “Se algum dia, como é de esperar, a civilização projetar-se pelo continente africano adentro, penetrando os povos da raça negra, a glória desse imenso acontecimento, amargue embora aos filantropos, caberá exclusivamente à escravidão. Foi ela que preparou os precursores negros da liberdade africana”. Poucos terão dito tantas sandices com tanta repercussão. Estrategista, Alencar podia dizer que eram argumentos de um louco, Erasmo.

Esse intelectual destemido, adulado e lido, inspirou muitos conservadores, racistas e escravagistas ao longo da reta final que levou ao 13 de maio de 1888. Só falava, porém, para os convencidos. José de Alencar votou contra a Lei do Ventre Livre e chegou a acusar D. Pedro II de ditador por sua intromissão no parlamento em defesa de reformas na escravatura. Num discurso feito em 13 de julho de 1871, na Câmara dos Deputados, Alencar resumira a sua posição com talento de ficcionista e uma imaginação transbordante: “Senhores, é um fato reconhecido a moderação de que se tem revestido sempre, e ainda mais nos últimos tempos, a instituição da escravidão em nosso país. Nossos costumes, a índole generosa de nossa raça, impregnaram essa instituição de brandura e solicitude que a transformaram quase em servidão (...) Pois bem, se com a nossa impaciência sufocarmos esses sentimentos generosos, se sopitarmos esses sentimentos benévolos; se criarmos o antagonismo entre raças que viveram sempre unidas, retribuindo uma com sua proteção os serviços da outra, não receais que desapareça de repente esse caráter de moderação e de caridade”. Não lhe faltariam imitadores no futuro. Alencar poderia ser invocado como patrono dos que combatem cotas e outras políticas ditas afirmativas de compensação às vítimas do racismo.