Juremir Machado da Silva

Minhas pautas e bandeiras prioritárias



Quando eu era estudante de História, no começo dos anos 1980, fui anarquista. Sonhava com uma sociedade sem Estado. Oscilava entre o anarquismo individualista do alemão Max Stirner, que se dizia inimigo até da sociedade, e as ideias de Proudhon, para quem a propriedade era um roubo. Como muitos jovens idealistas libertários eu era contra líderes, mas sonhava em ser líder. Se eu tivesse de liderar, por dez minutos, mais do que isso o meu carisma não daria conta, as manifestações de agora, eu tentaria convencer a massa a permanecer pacificamente nas ruas até alcançar estas dez metas:

1 – Renúncias de Renan Calheiros e Marco Feliciano.

2 – Rejeição do projeto da “cura gay”.

3 – Fim das férias prolongadas e outros privilégios do judiciário, fim do recesso parlamentar do meio do ano e investigação dos gastos com a Copa do Mundo.

4 – Passe livre para estudantes e desempregados e abertura real das contas das empresas de transporte.

5 – Pagamento imediato do piso do magistério pelos governos, como o do Rio Grande do Sul, que não o fazem.

6 – Fim do pagamento de auxílio moradia e alimentação retroativos, por qualquer razão, ao judiciário e fim do pagamento de passagens para mulheres de ministros do STF.

7 – Julgamento imediato pelo STF dos recursos e, em consequência, prisão dos mensaleiros condenados.

8 – Fixação da data de julgamento do mensalão mineiro.

9 – Reforma política por meio de consulta popular com  obrigação de acatamento da vontade dos cidadãos.

10 – Redução do número de ministérios.

11 – Fim do suplente de senador sem votos.

Há mais coisas que precisam ser resolvidas. Mas sem essas aí eu não arredaria pé das calçadas. Tive muitas discordâncias em relação aos métodos do STF no julgamento do mensalão, mas jamais duvidei de que houve bandalheira. Aprendi com advogados que verdade é a coisa julgada. Estabelecida, portanto, a verdade pelo julgamento concluído as prisões não podem ser proteladas. Também não pode mais ser adiado o julgamento do mensalão mineiro, considerado a matriz de todos os mensalões. O STF tomou um choque de celeridade e já mandou prender um deputado condenado que se escondia na Câmara. O Senado transformou a corrupção em crime hediondo numa votação ocorrida durante o jogo do Brasil com o Uruguai. A hora é agora.

A existência de dinheiro para obras fundamentais, tendo a Copa do Mundo como pretexto, e a agilidade surpreendente dos três poderes da República, tocados pelo grito das ruas, revela, mais do que uma súbita virtude, uma capacidade de adaptação muito próxima da canalhice. Se a massa não urra, fica assim mesmo. A recondução de Renan Calheiro à presidência do Senado foi simbolicamente um dos atos mais infames da história política recente do Brasil, a prova da indiferença dos políticos em relação aos eleitores e a demonstração escolar de que a ética é uma palavra oca em Brasília.

Só urrando mesmo para mudar.

Estou velho para continuar anarquista, mas jovem o suficiente para aplaudir as manifestações pacíficas que estão mudando o Brasil. É o momento de gritar da janela:

– Não parem! Não parem! Não parem!

E completar com o mesmo entusiasmo:

– Pacificamente! Na boa! Na paz!

E mais:

– Consulta popular já!

O que tem de político e de especialista conservador tentando impedir a consultar popular é uma grandeza. Cada um com uma desculpa técnica mais esfarrapada do que a outra.

– Povo neles!