Miniconto: manhã fresca
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Miniconto: manhã fresca

História de um crime premeditado

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No dia em que mataria um homem, Nicolau saiu cedo de casa. Havia premeditado o seu crime com a calma de um profissional, que não era. Movia-lhe um sentimento de vingança alimentado por antigos rancores e novas provocações. Era um homem de ideias simples e sentimentos complexos. Usava calça e jaqueta jeans. Andava sempre vestido assim. Calçava botas de caubói. Era chamado de Vaqueiro. Não era homem de poucas nem de muitas palavras. Fazia como todo mundo: jogava cartas, de preferência truco, ou nove, bebia cachaça, escutava jogos de futebol no rádio, odiava política.

      A manhã estava fresca para um mês de dezembro. Soprava uma brisa agradável, que trazia perfumes do campo. Pássaros cantavam como se pressentissem algo de muito ruim. Andou com firmeza aos olhos de todo. Passou pelo mercado central, pela estação ferroviária, pela escola e pelo jardim das flores, onde velhas de preto preparavam ramalhetes coloridos. Avançava resoluto. Quem poderia saber que no seu interior fervilhavam paixões que nunca teriam fim? Quem seria capaz de ver a morte nos seus olhos escuros nos quais a luz rebatia como se temesse ser tragada pelo abismo? Depois do crime, diriam: “caminhava como quem vai matar”.

      Estava cevado pelos ódios locais, transido de um frio ideológico, convencido de cumprir uma missão. Durante muitos anos uma pergunta ecoaria: quem era o mandante? Ele se manteria calado. Jamais disse ter agido por conta própria, mas não incriminou quem quer que fosse. Tornou-se, como diziam seus ex-amigos, um túmulo. Ninguém o visitaria na prisão. Mesmo assim, nos bares, sempre havia alguém para dizer com um sorriso:

– Fez a coisa certa.

      Quem ouvia e discordava, não respondia. Havia medo no ar. A melhor estratégia, diziam os mais velhos, era o silêncio. Uma espiral que se esparramou até produzir um grande vazio. O ódio fermentava sem que uma palavra fosse dita. Não era mais preciso designar os inimigos. Cada um sabia a que campo o outro pertencia. Toda infidelidade poderia ser fatal. O assassino não se poupou, não cortou caminho, não evitou os olhares que estranhavam sua marcha num horário inabitual. Era como se todos soubessem que o dia havia chegado. Anos mais tarde, quando um jornalista quis reconstituir o caso, esbarrou num mutismo que tinha tudo de verdade:

– Por que ele matou?

– Porque não podia fazer diferente, ora.

      Será que não sabiam o motivo real do assassinato? Pensariam coisas diferentes e não confessariam para não errar? Conspiravam para proteger aquele que haviam abandonado e do qual não citavam mais o nome? O ar fresco daquela manhã pesaria para sempre na memória sólida daqueles seres de vida líquida e viscosa. Quase ao final da investigação, uma senhora centenária, com um buquê de rosas vermelhas nos braços, sussurrou:

_– Por ódio, ora.

– Ódio de que, senhora?

– Ora, filho, da política, de que mais seria?