Minuanos e charruas existiram?
Uma amiga de muito tempo, arqueóloga e historiadora, está em Lisboa. Beatriz Thiesen é fundadora e coordenadora do curso de Arqueologia da FURG. Conversei com ela, ultimamente, via facebook, sobre um tema intrigante: minuanos e charruas. Existiram de fatos minuanos e charruas? Há provas da existência deles?
José de Saldanha, em Diário Resumido, diz: "Os minuanos não têm as ventas do nariz e as maçãs do rosto tão intumescidas como geralmente todos os índios: estes são pela maior parte corpulentos e bem feitos, porém as mulheres quase todas de meia estatura".
Sobre os charruas, diz Juan Faustino Salaberry: "Se estenderam com maior ou menor flutuação por tudo que os espanhóis chamam Província do Uruguai; e, nesse sentido, charrua e uruguaio têm de ser, a fortiori, a mesma coisa". Guilherme César, que cita os depoimentos acima, destaca: "Não são pequenos os óbices que enfrenta o estudioso das culturas préc-colombianas para classificar o aborígene. Com referência ao Brasil, onde predominaram os Tupi-Guarani, nem mesmo os especialistas se sentem seguros".
JMS: Existem provas cabais da existência de minuanos e charruas?
Beatriz Thiesen: o que chamas de provas cabais?
JMS: Bem, deixemos por evidências capazes de convencer os especialistas no assunto.
Beatriz Thiesen: Bom... O que se sabe é que alguns europeus chamaram um certo grupo de indígenas, que manejavam bem boleadeiras e andavam a cavalo, de Minuanos. Mas isto me fez lembrar aquela história que se conta sobre os cangurus, que diz que um europeu viu aquele bicho e perguntou a um aborígene como aquilo se chamava. O nativo, entre surpreso e horrorizado com a burrice do europeu, respondeu: canguru, que significa "sei lá" . Em todo o caso, arqueologicamente, não existe nada que possa afirmar a existência dos minuanos.
JMS: E os relatos "históricos" sobre isso te parecem consistentes ou fábulas? O mesmo vale para os charruas? Esses "minuanos" cavaleiros eram, de fato, o quê?
BT: Sei lá quem eram. Mas o fato é que existiu um grupo assim.Certamente não é fábula. Vale o mesmo para os Charrua, que, segundo os relatos, estavam estabelecidos mais para o interior (campanha e Uruguai). Os Minuano ocupariam as regiões litorâneas ao sul. O estranho de tudo isso é que os relatos da época do contato não correspondem ao registro arqueológico. Temos algumas hipóteses para isto, começando com o fato de que tais índios, sob o impacto da conquista, teriam modificado sua cultura de forma muito intensa. Bom... como eu sempre digo aos meus alunos, plagiando alguém que eu não lembro que é: o que vale são as perguntas. As respostas são sempre transitórias.
JMS: O que á a arqueologia do capitalismo? Recebo todos os dias e-mail sobre isto e aquilo feito por minuanos e charruas como coisa provada. Duvido que muita gente saiba da existência de dúvidas e da falta de provas sobre a existência deles. Não é uma arqueologia dos nossos mitos?
BT: Desde o meu mestrado que trabalho com as raízes da
sociedade capitalista. Quando criei o curso de Arqueologia da Furg,
estabeleci duas áreas de concentração: uma em arqueologia das sociedades
pré-coloniais americanas, e outra de arqueologia do capitalismo. Esta
última defende que o foco da tradicionalmente chamada "Arqueologia
Histórica" seja o estudo em termos históricos, culturais e sociais concretos dos efeitos do mercantilismo e do capitalismo que foi trazido
da Europa a partir do final do século XV, priorizando aquelas questões
cujo acesso privilegiado ou único se dá pela cultura material (o
cotidiano, por exemplo). É óbvio que esta arqueologia faz muito menos sucesso que aquela outra. Sobre esse negócio de materiais feitos por charruas, ou minuanos, do ponto de vista da arqueologia, é pura balela: não existe nenhuma comprovação sobre a relação entre os materiais arqueológicos e culturas descritas historicamente, a não ser no caso dos guaranis e, assim mesmo, com muuuuiiitas ressalvas.
JMS: As duas parecem muito interessantes. Mas, no caso de charruas e minuanos, o fato de não existirem materiais arqueológico quer dizer o quê? Que esses índios pertenciam a outros grupos? Que os relatos históricos são fantasiosos? Pode-se dizer com algum embasamento que os charruas e os minuanos existiram como grupos étnicos autônomos ou como tribos? Ou: como surgiram os relatos sobre a existência de charruas e minuanos?
BT: Não é que não existam materiais arqueológicos. É que os artefatos que encontramos, como boleadeiras, pontas de flexa, etc., não são passíveis de serem vinculados diretamente a um desses grupos. Trata-se de uma posição teórica. Estamos tratando com duas coisas distintas: de um lado, o que se convencionou chamar de "cultura arqueológica" e, de outro, grupos étnicos históricos descritos por "terceiros". Quem tentou juntar as duas coisas foram os arqueólogos histórico-culturalistas, que acreditavam (acreditam) que artefatos, estilos, formas de assentamentos, e sua distribuição geográfica estão relacionados a grupos históricos. Para eles, e influenciados por Franz Boas, era apropriado estudar unidades culturais, desde que estivessem limitadas geográfica e temporalmente. O particularismo histórico foi adotado utilizando-se uma minuciosa descrição de artefatos, com base na criação de tipos que foram entendidos como uma entidade real. Os estudos focaram-se em estabelecer sequências culturais empiricamente documentadas por artefatos. Assim, principalmente a mais velha geração de arqueólogos brasileiros , Mentz Ribeiro, Naue, Schimtz, só para ficar em casa) - acreditou que determinados tipos de sítios arqueológicos correspondiam a certos grupos étnicos. Por exemplo, os cerritos, ligados a uma certa "tradição Vieira", seriam os testemunhos arqueológicos do grupo étnico Minuano. Repito: é uma posição teórica com a qual não compartilho. Aliás, nunca compartilhei. Mas não quero dizer que os relatos históricos sejam fantasiosos. Diria que são uma visão bem particular de um grupo com interesses bem específicos. Os primeiros navegadores viram serpentes marinhas e monstros de todo o tipo. Não acho, tampouco, que estes relatos devam ser tratados como fantasiosos. Tudo bem: estou exagerando. O caso aqui é muito mais complexo, porque sobre todos esses
relatos se construíram identidades: todo uruguaio é descendente de um charrua.