Não fosse redutor, eu reduziria a humanidade a dois tipos: os que sentem prazer em fazer certas coisas da mesma forma a vida inteira e os que precisam mudar todo tempo. O casamento era para a vida toda. Há agora quem não aguente três meses. No futebol, o escanteio era longo; agora, curto. O lateral era curto; agora, longo. O drible e o lançamento eram o máximo; agora, o mínimo. Bons são o passe curto e a aproximação. Legal era ter onze titulares entrosados e com ritmo de jogo; agora, bacana é rodar o time. Até o melhor precisa ficar no banco. Não se fala mais em partida, mas em minutagem. Cabelo era curto; depois, longo; agora, curto de novo.
Há culturas que tendem para a permanência. Outras, para a mudança. Na França, parece que nada muda, da apresentadora do tempo à pastinha transparente de colocar papéis. É ilusão. No Brasil, tudo muda, do nariz das pessoas ao estilo de vida. Só o pior fica igual: clientelismo, machismo, homofobia, racismo. Jovens adoram mudanças e chamam de velho, o pior dos insultos, qualquer um que tenha gosto em gozar do mesmo jeito. Interessante é que alguns adoram tradições no exterior e novidades em casa. Tem cara que jamais pegaria transporte coletivo nacional, mas ama metrô na Europa. Nem todo amante da permanência é tradicionalista. Pode ser apenas admirador da eficácia comprovada de certas maneiras de fazer.
Jornal no Brasil passa por reforma gráfica volta e meia. Quando o público se acostuma, muda. Por quê? Ora, porque mudar é moderno. Conheci um cara que era feliz no casamento, mas se separou para não se arrepender mais tarde de não ter mudado. O moderno chega ao êxtase quando alguém lhe fala “numa maneira nova de fazer”. O quê? Qualquer coisa. Linguiça, feijoada, gol, sexo, literatura, política, carreteiro, ginástica, pilates, pular sapata, jogar canastra, caminhar no parque, andar na rua, corrupção. Opa, isso não, embora seja o que mais muda para atingir o mesmo fim.
Quem gosta de certas repetições têm dois caminhos: virar tradicionalista e viver numa bolha confortável ou silenciar. O mudancista novidadeiro não perdoa continuístas. Chicoteia os pobres para que saiam da “zona de conforto”. Tenho um amigo que se surpreendeu quando eu lhe falei, como professor, em fazer um powerpoint. Jurou que era coisa do passado. Disse que entendia a ideia, mas que não ouvia falar em tal velharia desde os tempos do Deltan. Garantiu que devem existir novas ferramentas para fazer o mesmo. Só não admitiu que ainda se use algo com esse nome. Powerpoint, segundo ele, é do tempo do giz e do quadro negro.
Se é bom, é novo. Se é novo, é bom. Parece que a indústria vem sendo estimulada a avançar na obsolescência programada dos produtos. Pessoas modernas não querem uma geladeira que dure dez anos. Imaginem usar o mesmo celular durante três anos. E ser casado há 30 anos? Os novidadeiros comemoram, no máximo, seis meses de alguma coisa. Depois disso, sentem o cheiro do bolor. Camiseta de clube não mudava de cor. Do jeito que vai, ainda verei o Inter de azul e o Grêmio de vermelho. É por isso que eu mudo de clube de futebol a cada dez anos. Quem não o faz é ultrapassado. A tradição da independência está ultrapassada. Espera-se de cada um tenha lado.