Moral da história: mentir ou não mentir
Imperativos de época
Nunca se deve mentir? Ou mentir, às vezes, é uma obrigação. Kant, O grande filósofo alemão, e Benjamin Constant, pensador francês de origem suíça, travaram uma polêmica a esse respeito. Kant, defensor do imperativo categórico, afirmava que nunca se pode mentir. Constant, mais pragmático, pensava em exceções. Algo assim:
– Tem um homem querendo me matar, seu Immanuel. Pode me esconder na sua casa, pelo amor de Deus, por piedade?
– O que você fez para estar sendo perseguido?
– Explico depois, seu Immanuel, mas sou inocente.
– Corra para baixo da minha cama. Faço isso por sua mãe.
– Obrigado, seu Immanuel, o senhor é um homem bom.
Minutos depois, chega o “assassino”:
– Seu Immanuel, o senhor viu o fulano?
– Por quê? O que quer com ele?
– Viu ou não viu?
– Vi.
– O senhor o deixou se esconder na sua casa?
– Bem...
– Deixou ou não? Não minta?
– Não estou mentindo.
– Está tentando omitir. Omitir e mentir dá no mesmo.
– Não é bem assim.
– Deixou ou não?
– Deixei.
– Onde ele está?
– Não preciso dizer.
– Está dentro do guarda-roupa?
– Não.
– Está embaixo da sua cama?
– Está.
– Obrigado, seu Immanuel, o senhor é um homem que nunca falta com a verdade. Vou matar esse desgraçado.
– Você não tem o direito de entrar na minha casa.
– Eu sou um criminoso, seu Immanuel, não me importo com o que é direito ou não. Mas, admito, admiro o seu senso de justiça. Aqui em Königsberg todo mundo o acha justo.
A era dos imperativos categóricos ficou para trás. Estamos agora nos tempos dos imperativos atmosféricos. Em Brasília, um sujeito chega correndo à casa de Sarney.
– Seu Zé, me esconda, pelo amor de Deus, tem um cara querendo me matar por causa daquela história...
– Psssss! Tem câmera de segurança pra todo lado. Não diga nada agora. Vá pra baixo da minha cama. Depois falamos do quanto vai lhe custar este pequeno favor providencial.
– Obrigado, seu Zé, o senhor é um homem prático.
Minutos depois, chega o “assassino”:
– Seu Zé, viu o fulano?
– Ver ou não ver é muito relativo, meu filho.
– Vi ou não viu?
– Os sentidos podem nos enganar, rapaz.
– Ele está na sua casa, seu Zé?
– Não.
– Eu o vi correr pra cá, seu Zé. Não minta.
– Não estou mentindo. Nunca fui tão verdadeiro.
O “assassino” vai embora.
– Obrigado, seu Zé, por ter mentido por mim.
– Não menti.
– Não.
– Está casa não é minha. É do Estado.