Juremir Machado da Silva

Morreu o genial Maurice Dantec

L L"écrivain français, vivant à Montréal (Canada), Maurice G. Dantec pose le 24 mars 2003, à Paris. L"auteur, né le 13 juin 1959 à Grenoble, publie le 6 mars 2003, son dernier roman "Villa Vortex" aux éditions Gallimard. Maurice G. Dantec écrit depuis 1990 et signe ainsi son sixième roman. AFP PHOTO MARTIN BUREAU / AFP PHOTO / MARTIN BUREAU


Um fragmento:

Andreas Schaltzmann voltou para casa num estado de perplexidade
total. Engoliu um bom litro de água com medicamentos
prescritos no tratamento seguido no hospital de Villejuif. Dormiu
como chumbo e, quando acordou, doze horas depois, seguiu no
mesmo ritmo. Segundo suas declarações, esquecia completamente
toda noção de tempo nesses momentos a ponto de não saber se os
seus atos passados eram reais ou a consequência de implantes de
memória programados pelos aliens enquanto ele dormia.
Nessa noite, quando chegou à sua pequena e cinzenta casa,
junto ao Sena, na divisa de Vitry com, ao norte, Ivry-sur-Seine,
correu os olhos por uma área à espera da demolição e encheu-se
de ódio ao ver um outdoor da empresa Bouygues.
Bouygues, proprietária da TF1, era também a grande
companhia mundial da construção civil. Nessa emissora de
televisão atuava o apresentador que conspirava contra o Papa.
Bouygues era uma das peças centrais no complô das criaturas de
Vega. Queria demolir-lhe o bairro, a sua casa, para obrigá-lo a
embrenhar-se, só e desprotegido, num universo dominado pelos
nazistas, pelas radiações e pelos pseudo-humanos. Mas o próprio
Bouygues não passava de um peão num tabuleiro mais amplo e
inquietante.
Não havia dúvida de que os seus pulmões estavam esburacados.
O baço liberava um bloco de calcário que viajava
pelo seu corpo. O estômago apodrecia como um pedaço de carne
inanimada.
Depois de alguns dias de sono neuroléptico, Andreas
Schaltzmann retomou pouco a pouco a vaga estrutura que lhe
servia de real.
Passou o dia olhando televisão, comendo biscoitos molhados
no leite quente, macarrão e pepino, os únicos alimentos que não
estavam infectados pelos vírus extraterrestres.
À noite, percebeu, de repente, que seu coração estava
apertado. A perseguição incessante que lhe faziam os aliens atingia
um estágio superior. Diante do inevitável, tomou uma decisão.
Precisava de sangue.
Apenas o sangue poderia injetar vida no coração do seu
organismo e combater a guerra microbiológica lançada para destruí-
lo. O sangue era sagrado e aquilo que nos unia ao Senhor Jesus
Cristo. Somente o poder divino poderia interromper a transformação
odiosa pela qual passava o seu corpo.
raizes