Juremir Machado da Silva

Morte de rato

Com ou sem petróleo





Nero era filho de Cneu e de Agripina, irmã de Calígula. Cneu foi acusado de traição, adultério, incesto e assassinato por Tibério. Alegou que não havia provas contra ele e só faltou dizer que era intriga da mídia. A morte de Tibério livrou-lhe a cara. Faleceu de doença. Agripina foi acusada de matar o marido, o imperador Cláudio. Calígula foi morto junto com a mulher e a filha. Cláudio teve dois filhos com Messalina, antes de matá-la para sufocar um complô. Nero casou-se com sua meia-irmã, Cláudia, mas tomou como amante Cláudia, uma liberta. Cláudio adotou Nero como filho. Quando Britânico, filho legitimo de Cláudio, fez 14 anos, tornou-se uma ameaça para Nero. O jovem morreu repentina e misteriosamente. Nero era homem de grandes amores. Apaixonou-se por Popeia, esposa do seu amigo Marco Otão (será de daí vem otário). Como sua mãe opunha-se ao romance, mandou assassiná-la, um dos métodos mais eficazes para remover obstáculos ao livre curso amoroso. O mesmo vale para obstáculos ao livre curso do poder. Nero mandou eliminar seus rivais. Era um homem de espírito prático e claro.

Suetônio e Dião Cássio sustentam que Nero pôs fogo em Roma para poder reconstruí-la ao seu gosto. A arquitetura, como a amor e o poder, requer, por vezes, métodos expeditivos. Para fazer as novas obras, aumentou impostos. A oposição, sem amor pela arquitetura, acusou Nero pelo incêndio, que repassou a culpa para os cristãos e mandou jogar alguns aos cães e crucificar outros. O imperador era poeta, músico e “piloto”. As suas loucuras não lhe trouxeram tantos incômodos quanto a sua politica fiscal. Executar inimigos e incendiar a cidade, tudo bem, mas abusar nos impostos e nos gastos públicos, isso não. Declarado inimigo público pelo Senado, acossado pela aproximação de um soldado romano, pediu ao seu secretário que o apunhalasse.

Naquela época, era preciso pedir. A sua última frase foi: “Que artista falece comigo”. Coisas da antiguidade, quando tiranos malucos podiam reinar. Qualquer comparação com Kadhafi é mera coincidência.

Na escola, Kadhafi destacou-se em literatura. Depois de tomar o poder, escreveu o seu “Livro verde”, uma obra obscura, e organizou o “Estado de massas”, regido por milhares de comitês populares segundo a sua vontade individual. Sufocou uma tentativa de golpe mandando prender mais de duas mil pessoas e executando seus principais rivais. Patrocinou terroristas e mandou derrubar aviões civis de passageiros. Foi baleado em nova tentativa de golpe. Teve a mulher a filha mortas durante um bombardeio americano. Nero reinou por 14 anos. Kadhafi por 42. Nero pôs fogo em Roma. Kadhafi levou a Líbia inteira a ser incendiada. Capturado, na última quinta-feira, não teve a esperteza de suicidar-se.

Não se fazem mais secretários como antigamente. Foi executado pelos oponentes.

Uma lei dos tempos antigos foi ressuscitada: aqui se faz, aqui se paga.

Ainda bem que estamos longe dos bárbaros tempos da antiguidade. O civilizado Ocidente jamais teve relações com esse Nero sem inspiração poética. Nem frase final ele disse.

Morreu como um rato.

Havia petróleo na suas veias.

O ditador da Síria é feliz.

Pode matar tranquilamente.

Nas suas veias correio sangue.

Sangue inocente vertido sem incomodar os grandes deste mundo.