Morte em Palomas (1/23)
Libório lembrava de tudo.
Até da hora do primeiro crime.
Era fácil.
Fora no dia em que o presidente da Câmara de Vereadores de Palomas havia sido flagrado escondendo dinheiro nas meias.
Apesar do calor de 30 graus, o sujeito usava meião de jogador de futebol.
Tinha R$ 28 mil na barriga da perna esquerda e R$ 29 mil na barriga da perna direita.
A explicação de Leo Prudêncio ficou na memória de todos: “Não uso mala nem pasta e preciso proteger o dinheiro público”.
O primeiro crime aconteceu também no dia que Adão pulou a janela do quarto do Dr. Adair antes do sol se pôr. Estava só de cueca amarela. Embora alguns tenham ficado de olho no volume que forçava o tecido do sleep do guardador de carros, não consta que estivesse carregando qualquer propina.
Foram dias agitados em Palomas. As denúncias sucediam-se.
O Dr. Adair divulgou uma nota que marcou época pela transparência: “Sou corno. E daí? Tenho aquilo roxo”.
O comunicado não surtiu o efeito desejado.
As fofocas continuaram.
Qualquer um podia fazer sua fezinha no bolão da virada.
Bastava prever com quantos tiros Adão seria executado.
Outra possibilidade era arriscar um palpite sobre quantos palomenses já tinham experimentado os pelegos ou os lençóis do Dr. Adair e da Dona Zulmira. Esse burburinho fez com que a polêmica sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos passasse longe de Palomas.
Em outras circunstâncias, o PNDH3 teria causado intensos debates em Palomas, onde metade da população sonha com a volta da ditadura e a outra metade, por causa do seu esquerdismo de faca na bota e da proximidade com o Uruguai, ainda é considerada fã dos tupamaros, vendo no Pepe Mujica atual apenas um traidor da utopia socialista.
Palomas tornou-se famosa por ter sido o primeiro lugar a aprovar a legalização do aborto e a adoção de crianças por casais homoafetivos.
Essa legislação progressista, no entanto, foi considerada inconstitucional e não pôde ser aplicada.
Situação e oposição foram várias vezes às vias de fato por causa disso.
Num dos momentos mais tensos dessa pendenga, num debate na esfera pública, quer dizer, na praça com toda a população reunida, com o mate amargo passando de mão em mão, um advogado liberal, responsável pela base jurídica das leis avançadas de Palomas, foi insultado por um adversário.
O conservador bateu com o relho na bota:
– O senhor é um “viado” – declarou.
– E o senhor é homofóbico – respondeu o advogado.
Dava para sentir que tinha a boca seca. O suor escorria-lhe como se estivesse vertendo água do seu pescoço. A população aturdida perguntou em uníssono:
– Homo o quê?
Fechou o pau. A polícia teve de usar bombas de efeitos moral para acabar com a briga rotulada por Vilma, a louca, como “imoralidade pura e simples”. Na confusão, um policial teve um olho furado por uma bomba. Uma bomba de chimarrão. Enfim, uma sequência de confrontos e de situações bizarras antecedeu o primeiro crime.
Eram 23h32min quando se ouviu o primeiro disparo. Seguiram-se outros 14 estampidos. E um longo silêncio.
Menos de dez minutos depois, Libório postou no seu twitter: “Uma tragédia”.
E tornou-se o primeiro suspeito.