Morte em Palomas (11/23)
Depoimento espontâneo
O inspetor Vieira recebeu o delegado com um mate fresquinho. René Manhãs estava de ressaca. Dava para ver que sentia a cabeça como um quadro de Picasso. Ele tinha pressa em ver Libório, o guri que o levara até corpo crivado de balas da adolescente Gisele. Sabia que o interrogatório seria longo. Vieira não o perdoou:
– Andou se esbaldando, delegado?
– Exijo mais respeito, inspetor.
– Bebeu demais, não é?
– O suficiente para esquecer os malas que me enchem o saco.
– O senhor é muito suscetível.
– Suscetível é o rabo da sua mãe.
– Respeite a minha mãe, delegado.
– Está certo, está certo, a sua mãe não tem culpa de nada.
– Vejo que está em ponto de bala.
– É. Você nunca sente vontade de matar alguns, Vieira?
– Nosso papel é impedir de matar, delegado. Ou descobrir quem matou.
– Conta outra, Vieira, que eu te conheço bem.
– Só mato por dever de ofício, delegado.
– Eu tenho de vontade de matar três tipos de pessoas, Vieira: os que me dizem, sempre que me veem, frases assim: "Como tem gente que lhe odeia, delegado". Fico com vontade de executar a figura por causa desse "lhe" e pelo prazer perverso que sentem em me jogar isso na cara, os cretinos, bando de filhos da mãe.
– São imbecis, delegado.
– Mas eles não sabem disso. Piores mesmo são os que me defendem assim: "Não dê bola, delegado, o senhor está cada vez melhor". Esses eu queria torturar antes de matar.
– Já imaginou, delegado, se alguém grava o que o senhor está dizendo?
– Está pensando em fazer isso, Vieira?
– Eu sou fiel ao senhor, delegado.
– Sei, sei... Fiel até que precise deixar de ser. Agora, eu queria matar mesmo é quem me dá conselho.
– O senhor está parecendo um recalcado, delegado!
– Vieira, fala aqui para mim, numa boa: você nunca sentou em colo de homem?
– Está me estranhando, delegando. Faca, meu!
Sobre a sua mesa, Manhãs entreviu um livro desconhecido.
– Que livro é esse?
– Não sabe? Estão publicando alguns inéditos de Simenon.
– E agora?
– Agora o quê?
– Quando vou ter tempo de ler isso?
– Nas férias.
– Acha que vou esperar até lá?
– Duvido – riu o inspetor.
– Traga logo o guri.
– Bem... Tem alguém querendo falar com o senhor...
– Quem?
– O Josias.
– Humm... Faz esse mala entrar.
Josias entrou com a cabeleira loura desgrenhada. O seu penteado era um pouco pior do que o daquele jogador do Flamengo, o Leo Moura. Lembrava vagamente um cocô no alto da cabeça. Manhãs detestava que se impusessem a ele. Organizava interrogatórios e depoimentos conforme sua noção de método da pirâmide invertida, do mais distante ao mais próximo, do geral ao particular, do menos ao mais suspeito. Nem sempre funcionava. Mas era assim que fazia.
– Então, Josias?
– Sei quem matou a Gisele, delegado.
– Ah, bom? E quem é o pai do filho da Dora?
– Dora?
– Nada, Josias. Já vi que não olha novela.
O rapaz espantou-se. Ergueu os braços cobertos de tatuagens. Eram todas muito esquisitas e escuras.
– Falo muito sério, delegado.
– Manda bala.
O menino estremeceu ao ouvir a palavra bala.
– Foi meu pai.
René Manhãs não conteve um suspiro.
– É mesmo?
– Ele não queria o nosso casamento.
– E ela queria?
– A Gisele?
– É.
– Claro. Estava grávida de mim.
O depoimento de Josias durou menos de 20 minutos. Um recorde. O delegado praticamente expulsou o cara da sua sala para grande surpresa do inspetor Vieira.
– Por que não acredita nele?
– Você acredita?
– Bem, não. Mas o senhor quase o enxotou...
– É um mentiroso. Burro e mentiroso.
– Hein?
– Gisele morreu virgem.
Vieira ficou de boca aberta. Parecia engasgado. O seu peito de toureiro de opereta subia e descia lentamente sob a camisa rosa com uma macha de café.
– Virgem? Aquela deusa! Nossa, delegado, é certamente o caso mais raro que já encontramos. Estou bobo. Besta.
– Você é besta, Vieira.