Juremir Machado da Silva

Morte em Palomas (12/23)

Morte em Palomas (12/23)

Um interrogatório

O humor do delegado estava péssimo.
O homem cheirava a vinho barato e a sabonete de motel.
O pior ainda poderia acontecer, sabia bem o inspetor Vieira, se o Inter perdesse o Gre-Nal.
Nos últimos dias, Manhãs alternava bebedeiras, coices nos subordinados e momentos de silêncio.
Ou trancava-se para ouvir tangos, coçar o saco e cochilar, não necessariamente nessa ordem.
Trouxeram Libório. Não passava mesmo de um guri. Estava assustado. Tinha espinhas amarelas no nariz aquilino.
Os pais dele já haviam aparecido duas vezes para clamar a inocência do filho. Não tinham dinheiro para contratar um advogado. A mãe estava desesperada. René Manhãs serviu-se de chá de carqueja.
Apontou a garrafa térmica para o rapaz. Libório fez uma careta.
– Pensou alguma vez em matá-la?
– Eu? – espantou-se Libório.
– Não, o Locha – disse o delegado. – Isso, você mesmo.
– Até que ele merecia. Mas eu nunca pensei nisso.
– Merecia?
– Provocava a gente.
– De que jeito?
– Sabia que era gostosa e mandava mensagens de e-mails fakes descrevendo o próprio corpo e o que desejava fazer na cama. Adorava contar o que fazia sozinha em casa.
– Como sabia que era ela?
– Ela dizia.
– Cadela – deixou escapar o delegado.
– É...
– E o revólver?
– Achei numa lata de lixo. Nunca o usei.
A perícia já descartara qualquer possibilidade de ter sido Libório o autor dos 15 disparos contra Gisele.
Manhãs sentia-se perdendo tempo. Sabia, no entanto, que Libório era sua única real via de acesso ao mundo virtual da guria assassinada. Os inspetores haviam vasculhado a vida dos familiares de Gisele, ouvido tios, primos, avós, amigas e professores sem descobrir qualquer coisa de interessante. Salvo que ela amava Britney Spears e tinha uma coleção de calcinhas asa delta vermelhas e brancas.
A conversa avançou pela noite.
O delegado Manhãs acreditava nas virtudes do cansaço para liberar a língua de alguém. Certa vez, virou três noites até arrancar uma confissão que lhe parecia evidente desde o primeiro minuto. O que poderia, no entanto, esconder Libório? Não passava de um moleque conduzido pelo nariz por uma adolescente esperta.
Palomas revelava-se para ele como se estivesse pisando pela primeira vez naquele lugar. Nunca tinha pensado que um filho pudesse, como Josias, odiar o pai a ponto de querer infantilmente incriminá-lo num caso hediondo. Quer dizer, sim, já tinha pensado e até visto situações semelhantes, mas resistia a elas com a ingenuidade de um principiante. Parecia-lhe bizarro que Libório pudesse amar tanto uma pirralha a ponto de ter desejado a morte dela.
Sentiu-se muito cansado e sujo.
– Está com fome?
– Não tenho mais fome – respondeu Libório.
– Traga a pizza, Vieira – ordenou o delegado.
– Onde você mais encontrava a Gisele?
– Na rede. Ela vivia na internet.
– Ela tinha muitos amigos?
– Uns três mil.
– Três mil? – espantou-se o delegado, que, na sua idade, não tinha mais de três amigos de fato.
– É, uns 1500 no orkut e uns 1500 no facebook.
– Hummm....
– Ela trocava mensagens com gente estranha, colecionadores de vinil, uma seita, homens mais velhos...
– Levem esse cretino daqui – ordenou Manhãs.
Quando Vieira retornou, Manhãs desatou a falar:
– É para isso que serve essa tal da internet, não é: sacanagem, putaria, masturbação, racismo e vadiagem.
– O senhor sabe mandar um e-mail, delegado?
– Sei mandar você ir ver se eu não estou lá na esquina dando um trato na sua irmã mais nova, idiota.
– Puxa, delegado, não tem sido fácil estar trabalhando com o senhor. Desse jeito, vou querer estar me transferindo para outra delegacia, onde haja respeito.
– Antes de ir, Vieira, me faça um grande favor.
– Pois não, delegado.
– Enfie esse seu gerúndio de telemarketing no fiofó.