Morte em Palomas (13/23)
Fatos novos
Palomas estava prestes a explodir. As pessoas sentiam medo. Manhãs participou de uma reunião das altas autoridades locais. Estavam lá o prefeito, o chefe do Ministério Público, o juiz, o presidente da Câmara de Vereadores e até o pastor, um médico e o padre.
– Que bando de safados – pensou.
Por um momento, enquanto fazia girar sua cadeira, pensou que aquele encontro não era legal. Depois, admitiu que era uma situação excepcional e aceitou falar o que dava sobre o lento avanço das investigações.
Os corpos dos homens assassinados haviam sido identificados sem que disso resultasse nenhuma pista consequente. O Dr. Adair jurara que nada tinha contra o amante da sua mulher. Confessou até dever alguns favores ao amável guardador de carros.
Dona Zulmira, esposa do Dr. Adair, cobriu-se de luto, depois de ir às compras, de lágrimas e de pó. Questionada pela mídia, disse que estava de preto por Palomas. Os jornais reclamavam pressa nas investigações e punham em dúvida as capacidades de René Manhãs para conduzir um caso tão complexo e cheio de pontas.
O delegado apegava-se a duas luzinhas para tentar avançar: 1) A afirmação de Libório de que Gisele trocava mensagens com gente de uma seita, o que lhe permitia fazer um link, embora tênue, com as imagens dos corpos destroçados do pendrive. 2) Uma pista dada pelo cego Borges: “Para ver bem é preciso, muitas vezes, fechar os olhos”. Manhãs fechava os olhos. O que via? Quase nada. Só perguntas: qual a relação entre o assassinato de Gisele e o assassinato dos quatro homens?
Teria o assassino deixado o pendrive por gosto perto do corpo da guria como uma mensagem ou uma assinatura?
O que queria mesmo dizer o cego com sua frase entre simplória e enigmática? Manhãs sentia-se novamente cansado. Aquilo tudo lhe parecia um jogo estúpido.
Lembrou-se da sua reflexão favorita tirada das páginas do cínico Schopenhauer: “Enquanto a primeira metade da vida é apenas uma infatigável aspiração de felicidade, a segunda metade, pelo contrário, é dominada por um sentimento doloroso de receio, porque se acaba por perceber mais ou menos claramente que toda a felicidade não passa de quimera, que só o sofrimento é real”.
Mas o que é o real?
O mundo do crime é surreal.
A miséria da periferia de Palomas tem algo de irreal. Enquanto uns se atolam na lama e comem bolachas de barro, outros desviam recursos políticos hiper-reais.
A veia moralista de Manhãs ativava o seu lado retórico. Havia rido da tirada maluca do presidente venezuelano Hugo Chávez:
– O terremoto no Haiti é culpa dos Estados Unidos.
Ouviu-se dizer para espanto geral:
– A culpa desses crimes todos é dos políticos.
O presidente da Câmara de Vereadores ficou vermelho. O juiz empalideceu. Era um homem seco. O padre e o pastor tossiram. Manhãs ia pedir desculpas quando foi chamado. O inspetor Vieira precisava falar-lhe em particular.
– Foi encontrado mais um corpo delegado. Degolado.
– Sabem de quem é?
– O advogado. O doutor Nilmar.
– O defensor dos homossexuais?
– Ele mesmo.
– Cacete!
– Parece que é o problema – riu o inspetor.
René Manhãs fez a cadeira girar duas vezes.
– Estou de saco cheio – admitiu.
– A mídia está dizendo que o senhor é um incompetente.
– Sabe o que eu queria fazer com esses jornalistas?
– Imagino.
– Empalar um por um.
– Nossa!
– Sabe por que não faço isso?
– Nem imagino.
– Porque a maioria ia adorar.