Morte em Palomas (14/23)
Corpo no bueiro
Morto com um tiro. Como todos os cinco anteriores que estavam abalando Palomas. Um detalhe, porém, chocava a multidão de curiosos. René Manhãs não foi menos sensível a esse aspecto. O corpo estava num bueiro. Tinha o rosto mergulhado no esgoto. Até aí, em princípio, nada de realmente anormal em se tratando da normalidade hedionda dos crimes. Alguns parecem de ficção. Mas são muito reais. Exatamente como aquele que ocupava a mente saturada de emoções do delegado Manhãs, um leitor de filosofia que acreditava nas virtudes do método e nos vícios da humanidade. O detalhe hediondo, caso se possa chamar de detalhe um dado que parecia engolir o todo, era o estado do cadáver: tinha os braços, as pernas e o pênis decepados. A língua não fora arrancada.
Manhãs emudeceu.
Os membros cortados estavam enrolados numa manta salpicada de estrelas e de escudos de clubes de futebol. Numa das mãos, aquela em que o advogado usava um anel vermelho, havia um pendrive. Era o elo, ao menos, com o primeiro crime, o assassinato da jovem e bela Gisele. Entre o segundo e o terceiro, o ponto em comum eram os membros decepados, ainda que, neste último caso, houvesse, por um lado, um acréscimo de partes mutiladas (pernas e braços) e, por outro lado, uma língua poupada. René Manhãs fez a cadeira de rodas avançar para um lugar mais calmo enquanto sua equipe trabalhava. A sua mente cartesiana trabalhava rápido, ligava os fios, tecia considerações, recorria a uma análise combinatória: haviam sido assassinados brutalmente uma guria linda, o amante de senhora da sociedade, dois uruguaios de passagem e agora um advogado liberal cheio de inimigos e defensor do aborto e dos casamentos entre homossexuais.
Quando o inspetor Vieira se aproximou, o delegado disse simplesmente: “Precisamos encontrar a zona hachurada”. O subordinado coçou a cabeça sem entender. René Manhãs precisava falar para entender a si mesmo:
– Estamos diante de casos que pertencem a uma mesma série. Isso é obvio. Afinal, Palomas não é palco de tantos crimes assim todo dia. O importante, porém, é saber o que liga esses crimes para além do aspecto geográfico. Por enquanto, temos duas séries numa só: os crimes com pendrive e os crimes com mutilação. Humm... E o crime com pendrive e mutilação. Parece claro. Não está.
– Temos um serial-killer – disse o inspetor.
– Caso o autor de todos os crimes seja o mesmo.
– Certamente não está agindo sozinho.
– Nesse caso, temos um grupo de serial-killers.
– A questão, delegado, é: o que os leva a matar?
Um clarão iluminou o rosto lunar do delegado.
– Você tem um laptot na viatura?
– Tenho o meu. O senhor sabe que...
– Traga-o imediatamente. Melhor, vamos até lá.
O delegado tinha pressa em ver o novo pendrive. Mais do que isso, queria compará-lo com o anterior. Ambos continham imagens de corpos. O novo mostrava um cadáver. Uma mulher. Com a língua sangrando sobre os seios.
Digno de um filme pornográfico de terror.