Morte em Palomas (15/23)
Um hacker em Palomas
– Preciso de um hacker – disse René Manhãs.
– Um quê?
– Um hacker, Vieira.
– Que bosta é essa?
– Um guri especialista em meter o nariz onde não deve. Nos computadores dos outros, sabe?
O inspetor Vieira não se interessava por computadores. Gostava mesmo era de uma cachorra.
Os colegas tentavam mostrar-lhe a importância da internet para arrumar namorada ou, enfim, para comer alguém.
Ele continuava solteiro e casmurro. Nos seus melhores dias, ia a um baile funk. Voltava latindo.
– Vai acontecer mais um crime – disse o delegado como se estivesse pedindo mais um mate ou prevendo chuva.
– Como o senhor sabe? – apavorou-se o inspetor.
– Está no pendrive. Cada pendrive indica o crime seguinte. Prova de que todos os crimes estão ligados.
– Mas como eles podem mostrar imagens de um crime que ainda não aconteceu? – Vieira tomava tudo ao pé da letra.
– São imagens copiadas de algum arquivo, Vieira, que indicam como o crime seguinte vai acontecer.
– Como assim?
– As imagens do pendrive encontrado junto ao corpo da Gisele eram de homens mutilados. Não se lembra?
Vieira empalideceu. Precisou sentar-se.
– Então vai morrer uma mulher?
– Sim.
– E eles vão arrancar a língua dela?
– Sim.
– Que podemos fazer?
– Quero verificar todos os e-mails da Gisele.
O inspetor Patrício entrou esbaforido:
– Mais dois corpos, delegado. Um deles foi morto com um golpe de foice, que fez suas tripas saltarem para fora. O outro, ao que tudo indica, foi envenenado. Quer vir?
A série do delegado Manhãs sofreu um baque.
O método estaria falhando?
Como encaixar os dois novos casos num série que envolvia mutilações e pendrives.
A conversa com o cego havia surtido o primeiro efeito.
Borges havia dito: “Para ver bem é preciso, muitas vezes, fechar os olhos”.
Manhãs custara a compreender o significado daquilo.
O pendrive o tirara da escuridão.
Era preciso fechar os olhos ao real.
Enfim, ao que a gente chama de real. Era preciso procurar em outro lugar.
No virtual.
– Vamos ver esses corpos – disse, visivelmente desanimado.
– Saco! – exclamou Vieira.
– Vieira, quero um hacker aqui quando eu voltar. Um que saiba tudo de invasões e seja discreto.
– De onde eu vou tirar um hacker, delegado? – choramingou o inspetor.
– Do seu rabo.
– Eu nunca vi um. Será que tem isso aqui?
– Pergunte ao guri, ao Libório.
– Mas, delegado, nós já o soltamos. Ordem do juiz.
– Eu sei. Melhor ainda. Vá até a casa dele.
René Manhãs estava exausto.
Permitiu que o inspetor empurrasse a sua cadeira.
O crime da foice acontecera num lugar isolado.
Numa chácara.
O morto era um mulato.
Afora as tripas, nada mais estava fora do lugar.
O “envenenado” morrera no lado oposto.
Parecia de propósito.
Era um homem esquelético, um ruivinho subnutrido.
Nada ligada aqueles crimes aos demais.
Salvo pelo fato de que eles davam sequência a uma série jamais vista em Palomas de assassinatos.
O delegado murmurava: “Método, método”.
E coçava o saco.