Morte em Palomas (16/23)
Raízes do mal
Passaram-se seis dias antes de algum esclarecimento.
O delegado René Manhãs viveu algumas tardes de muita angústia, o que só lhe agravou a gastrite.
E várias noites de putaria e trago.
As duas últimas mortes – um golpe de foice e um envenenamento – haviam praticamente posto por terra a sua teoria de um serial-killer agindo só ou em grupo e espalhando pendrives com as cenas dos próximos capítulos, quer dizer, dos próximos crimes. Sem teorias, restava-lhe encher a cara e trepar.
O hacker indicado por Libório descobriu que Gisele trocava e-mails libidinosos com muitos homens cujas identidades ainda permaneciam indefinidas.
Não fora localizado corpo algum de mulher com a língua arrancada e depositada sobre os seus seios.
Em resumo, Manhãs estava numa noite escura e com uma imensa ressaca.
Fez novas visitas ao cego Borges e ao vidente Guma sem tirar qualquer proveito disso.
Quer dizer, salvo o proveito de jogar uma boa conversa fora.
Uma conversa com Vilma, a louca, que raspava as suas latas, deu-lhe até algum alento:
– Isso é coisa de louco, delegado.
Candoca, o otimista, foi ainda mais sugestivo:
– Não há mal que dure sempre, doutor.
Hilário, o cético, contribuiu com uma provocação:
– Duvido que o senhor resolva esse caso.
A Folha de Palomas ironizava sem esconder o seu lado politicamente incorreto e o seu humor de mau gosto:
– Delegado não sai do lugar.
Ainda processaria a Folha por bullying.
Nada parecia fazer sentido.
Especialmente a vida.
Foi aí que os exames resolveram uma parte do enigma.
O resultado chegou num envelope com um título inquietante: raízes do mal.
O homem raquítico morrera de fato por envenenamento.
O inspetor Vieira arrepiou-se com essa constatação. O inspetor Patrício chegou a deixar escapar um lamento:
– Agora é que porca torce o rabo.
René Manhãs ouvia essas manifestações de cor local com paciência.
Abriu o envelope com o rosto fechado.
Passados alguns instante, sorriu.
Depois, gargalhou.
Sim, eram raízes do mal.
O homem comera mandioca brava.
Restava o caso do golpe de foice.
Faltava também identificar os correspondentes de Gisele.
Manhãs estava convencido, por intuição, que a chave de todos os crimes tinham a ver com a primeira morte. A única coisa que atrapalhava o seu raciocínio, além da ressaca, era uma pergunta de Vieira:
– Por quê?
Foi aí que o inspetor Fabiano, também conhecido como Pau de Virar Tripa, entrou na delegacia e disparou:
– Tenho duas noticias de amargar, delegado, de arrasar quarteirão. Qual o senhor quer primeiro: a boa ou a ruim?
O delegado pareceu refletir seriamente. No fundo, era um tanto supersticioso. Achava que a ordem dos fatores, em certas situações, alterava o resultado.
– Quero a boa primeiro, vamos.
– Pegamos o assassino do golpe de foice. É um coitado, o Pila. Confessou o crime. Matou o outro por R$ 10.
Manhãs abriu um sorriso imenso.
Depois, sentindo-se culpado, baixou a cabeça e falou quase com raiva:
– A ruim, vai.
– Uma mulher foi morta.
– Onde o corno do Patrício – -perguntou o delegado.
– Que isso tem a ver com as notícias, delegado.
– Como é que vou saber. Preciso que ele vá me comprar aspirinas.