Morte em Palomas (18/23)
Uma armadilha
O corpo da mulher estava sob o chuveiro.
Pela basculante, via-se o sol vermelho.
Mais um corpo nu.
Estendido no box.
Era uma mulher jovem, de uns 30 anos, morena.
A sua língua jazia sobre os seios fartos, entre os quais havia uma tatuagem.
O distintivo do Internacional.
Entre as pernas dela, ligeiramente abertas, havia um objeto azul: um pendrive.
René Manhãs cobriu o rosto com as mãos.
Estremeceu.
– Gostosa ela, não é mesmo, delegado?
– Magra demais – sussurrou Manhãs.
Palomas vivia os seus piores dias.
O delegado era um homem frágil.
A força dele vinha da clareza de raciocínio, não do corpo franzino.
O inspetor Vieira empurrou levemente a cadeira de rodas do chefe para fora do banheiro.
Todos os corpos até ali haviam sido atingidos por balas de pistola 9 mm.
Nenhum dos suspeitos tinha esse tipo de arma. Era a treva.
Manhãs recebeu um torpedo.
Um e-mail de Gisele encontrado pelo hacker: “Idade não é problema. Agora que você me cercou, não dá mais para voltar atrás. Eu quero. Quero fazer tudo o que você me propôs”.
O delegado sentiu a cabeça rodar.
Era claramente o e-mail da adolescente para um homem mais velho.
Ela o estava intimando.
O que ele teria dito a ela?
Por que estaria fugindo?
Seria casado?
Seria essa uma razão suficiente?
Manhãs foi até a viatura pegar o laptop para ver as imagens do pendrive. Outro corpo de mulher. Numa piscina.
Não uma piscina qualquer. Ele conhecia aquela piscina. Um detalhe, ao fundo, lembrava-lhe um lugar muito conhecido. Uma árvore. Uma figueira. A figueira em cuja sombra instalava a sua cadeira de rodas para admirar a alegria dos banhistas e beber a sua caipirinha semanal. O Clube Palomense.
– Depressa – gritou o delegado.
– Onde vamos? – perguntou Vieira.
– Tomar um drink no Ritz, cara.
– Que Ritz, delegado? Pirou?
– Quem pirou foi você, taipa.
– Por favor, delegado, onde vamos?
– Tentar evitar mais um crime.
Era uma aposta.
Manhãs pressentia que aquele crime ainda não havia ocorrido.
O clube já estava fechado.
O cenário parecia desenhado na cabeça do velho delegado.
Pediu ao inspetor que acelerasse e fechou-se num mutismo assustador.
Entraram no clube por uma porta de serviço. Viram imediatamente uma mulher nua amarrada numa cadeira à beira da piscina. Um homem disparou contra ela no exato instante em que René Manhãs acelerou sua cadeira.
O delegado acionou o seu revólver com uma rapidez espantosa.
As suas balas foram atingir a figueira e o muro.
Vieira imitou o chefe.
Os seus disparos perderam-se no vazio.
O assassino protegeu-se atrás de uma espécie de churrasqueira e mandou bala.
A cadeira de Manhãs rodopiou. Vieira imaginou o pior. Mas o pior não houve.
Salvo para a mulher.
Quando Vieira reergueu a cadeira do delegado, a moça já estava morta. Um tiro de 9 mm na cabeça. O assassino escapou saltando um muro atrás dos vestiários. René Manhãs deixou-se ficar com o olhar extraviado.
Eram mortes demais, mistérios demais, informações de menos. A mídia queria respostas. O Ministério Público vociferava. A sociedade clamava por justiça.
Tudo aquilo parecia não fazer sentido. Ou era um pesadelo desses que apavoram por serem inverossímeis.
– Estamos perto – disse repentinamente o delegado. – Só nos falta um mandante, um motivo e um sistema.
– Só isso, delegado?
– Aceito a ironia, inspetor. Mas estamos avançando. Posso garantir que todas essas mortes têm a ver com a primeira.
– Tudo tem a ver com o pecado original, não é? – resmungou Vieira.