Juremir Machado da Silva

Morte em Palomas (19/23)

Morte em Palomas (19/23)

Irrealidade cotidiana

– Sei que o senhor está sentido só, delegado. Conhece esta frase de Clarice Lispector?: “Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite”.
– Vieira, me diga uma coisa com toda a sinceridade: você é biba, não? Vai, cita outra frasezinha de boneca, vai
– Cito, cito mesmo, uma frase do Caio, que eu adoro.
– Caio, que Caio? Só conheço o caio de boca aqui.
– Largue de ser grosso, delegado. Caio Fernando Abreu: “Só que homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade - voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade.
– Por que você não se assume?
– Ora, delegado, não seja preconceituoso.
– Cadáveres nus e crimes hediondos nunca são convincentes – disse Manhã, mudando repentinamente de assunto.
– Eu sei, delegado, mas estes parecem ainda mais.
– Mais ou menos?
– Menos convincentes, delegado.
– Por quê, Vieira?
– Sei lá. Por estarem acontecendo em Palomas.
– Que você achou daquela história do cara que jogou o filho pequeno pela janela e depois se deu um tiro?
– Normal. Quer dizer, acontece toda hora.
– E o sujeito que matou a mulher com nove tiros?
– Um doido.
– Por ele fez o que fez?
– Por ciúme, não?
– Ou para não perder o apartamentinho do casal?
– Dá no mesmo.
– Ele se arrependeu?
– Quem? O cara dos nove tiros?
– Não, Vieira, eu.
– Mil desculpas, delegado. Sou meio lento de vez em quando. Parece que o cara ainda está em dúvida.
– E o pai, Vieira, que matou os dois filhos e depois se suicidou? Faz poucos dias, não? Parece-lhe normal também?
– Normal, não, delegado. Cada vez mais comum.
– Matar é da humanidade, Vieira.
– A humanidade mata, delegado.
– Eu disse o contrário.
– Eu também.
René Manhãs silenciou. Para ele a humanidade era um caso perdido. Via o homem como um predador em busca de pretexto para dar o grande salto no abismo. Estava a um passo de desvendar uma série de crimes, a maior da história de Palomas, e isso, de certo modo, o entristecia. Era como se fosse a prova de que a humanidade permaneceria no escuro, matando e morrendo sem causa. Vieira era um ingênuo. Absolvia a humanidade.
– A humanidade mata por motivos fúteis, delegado.
– A humanidade mata por medo, Vieira.
– Ou por prazer?
– Os perversos podem matar por prazer. Mas, em geral, é o medo que comanda os movimentos dos assassinos. Especialmente dos assassinos não profissionais, aqueles que fazem da morte um jogo aparentemente profissional.
– Acho que não estou entendendo, delegado.
– Eu tenho certeza.
– Mas o senhor não diz que o importante é duvidar sempre?
– Até ter certeza.
– Quem lhe ensinou isso?
– Descartes.
– Ele era delegado quando o senhor começou?
– Não, não, Vieira, nessa época, embora muita antiga, já fazia algum tempo que Descartes havia falecido – respondeu René Manhãs sem esconder o riso.
– Gostaria de ter conhecido esse cara.
– Eu também.
– Estou cada vez mais confuso, delegado.
– Eu também.
– É como Nietzsche dizia: o nome da moral é o medo.
René Manhãs enfiou a viola no saco e se foi.