Juremir Machado da Silva

Morte em Palomas (2/23)

Morte em Palomas (2/23)

Um corpo na grama

Não havia chovido durante o dia. Uma tromba de água desabou por volta das 20 horas. Os pastos estavam molhados e exalava um cheiro bom de verão. Libório continuava com o seu blackberry na mão direita. Desde os 15 tiros ouvidos em Palomas e do seu post no twitter, “uma tragédia”, o estudante permanecia em estado de choque. Libório usava o cabelo no estilo emo. Muita gente desconfiava dele. Diziam que era maconheiro. Suspeitavam que passasse os dias se masturbando. Uma vez, flagraram-no espiando a mulher do vizinho tomar banho de sanga só de calcinha preta. Palomas, como sempre, dividiu-se: metade da população criticava a desfaçatez do guri. A outra metade, formada especialmente pelas mulheres mais velhas e carolas, condenava a falta de pudor da mulher:
– Ainda por cima de calcinha preta! Estava pedindo...
Os seios da Marlene eram tidos pelos maiores e mais belos da região, só perdendo, segundo o delicado poeta municipal João da Égua, para os da vaca holandesa do Oliveira. Candoca, o otimista, via naquele portentosos peitos uma vitória da natureza livre de transgênicos e de herbicidas. Marlene não usava silicone nem sutiã.
Outra vez, descobriram coisas bizarras a respeito do Libório: que ele frequentava sites pornográficos na internet e lia tudo sobre o mensalão do DEM.
João da Égua espalhou uma piada duvidosa sobre isso:
– O Libório gosta de meia.
Foi Libório quem levou o delegado René Manhães até o corpo. Estava numa clareira no meio de um denso taquaral, o mesmo onde haviam filmado a filha predileta de um ruralista sendo cavalgada por um peão ao som de um célebre melô de Roberto Carlos. O vídeo fez sucesso no youtube antes de desaparecer misteriosamente. Pelo jeito, o google, que não cedeu à pressão chinesa, capitulou diante do lobby da poderosa CNAP (Confederação Nacional da Agricultura Palomense). Esse tipo de cena andava na moda em sofisticados ambientes de Punta del Este. Prova de que a sacanagem está acima de classes e ideologias.
René Manhãs era um homem experimentado e vitorioso. Fora enviado a Palomas para ajudar a controlar a violência colateral gerada pelos crescentes enfrentamentos entre latifundiários e agricultores familiares. Como era homem de diálogo, poderia atuar em bom entendimento com a polícia militar e dar alguma contribuição para a paz local, visto que o MP e a justiça viviam às turras, e os sindicatos denunciavam a criminalização dos movimentos sociais e a truculência militar. Manhãs estava na última linha reta da carreira. Adorava Lady Gaga e Gildo de Freitas. A frase que definia a sua maneira de trabalhar era cartesiana: “Com método se descobre tudo, até chave e celular em bolsa de mulher”.
– Está com medo? – perguntou a Libório.
– Acho que sim.
– Acha ou tem certeza?
– Não sei.
– Hummmm...
– Onde estava quando ouviu o primeiro tiro?
– Em casa.
– Não teve medo?
– Tive.
O delegado iluminou a área com um facho da sua lanterna vermelha. Havia muito sangue. O corpo estava na grama, em diagonal no meio da clareira. Totalmente nu.