Morte em Palomas (20/23)
Ver claro
Caía a tarde.
Apesar de ser verão, soprava uma brisa.
René Manhãs saiu a passear pelas ruas de Palomas.
Gostava de ver as pessoas indo e vindo.
Precisava organizar as ideias e esse era o seu método.
Instalou-se na praça para ler Simenon.
Amava “Maigret e o homem de banco”.
Abria direto numa passagem que o comovia: “O que o impressionava antigamente, o que lhe passava um sabor romântico, eram, nessa multidão em perpétuo movimento, os que haviam desistido, os desanimados, os vencidos, os resignados, que se deixavam arrastar ao sabor dos acontecimentos”.
Quando relia aquilo, sentia uma estranha vontade de chorar ou de cantarolar “Gente humilde”: “Tem certos dias em que penso em minha gente...” Continha-se.
Quando era jovem, detestava Simenon.
Não suportava os métodos do comissário Maigret, que, vez ou outra, num interrogatório, recorria a uma bofetada pela qual se justificava alegando que teria feito o mesmo com um filho. Só que Maigret não teve filhos.
O seu álibi era ter perdido uma filhinha.
Manhãs tinha afeição pelos “malditos”.
E nenhuma pelos homens descritos noutro parágrafo de “Maigret e o homem do banco”: “Mais tarde, quando aprendera a conhecê-los, já não era mais eles [os desanimados que o impressionavam e sim os do escalão de cima, decentes e limpos, discretos, que lutavam dia após dia para sobreviver, ou para se iludir, para acreditar que existiam e que a vida vale a pena ser vivida”.
Não, Manhãs não se interessava por essa “gente do meio”.
Admirava os de baixo e inquietava-se com os de cima.
Tinha sua teoria.
O problema maior é o que fazer da vida depois que a vida está ganha.
Como vencer o tédio?
Ficou ali, junto ao banco do meio da praça, contemplando os passantes com suas ilusões.
Sabia que todas as mortes tinham a ver com a linda Gisele.
Sabia que havia homens soltos prontos para matar.
Sabia que estancar aquele pesadelo era a sua obrigação.
Havia lido todos os e-mails trocados por Gisele com um homem muito mais velho do que ela e sabia que ali se encontrava a chave daqueles crimes.
A noite desceu.
Manhãs resolveu visitar o velho Borges.
Não sabia o que sempre o levava à casa do cego.
Sabia que gostava de falar com ele.
Menos sobre futebol.
Borges era colorado fanático.
Ao se aproximar da casa de Borges uma estranha questão tomou conta da sua mente: haveria luz na casa do cego?
Um cego acende a luz à noite?
Aquilo era patético, mas Manhãs não conseguia evitar de procurar a resposta.
Em que andar se encontrava o solitário Borges?
Era um desanimado?
Havia desistido?
Procurava ilusões para se agarrar a vida?
Mataria um monte de pessoas para encontrar num jogo hediondo alguma razão de viver?
Mandaria matar gente que tinha inimigos para que as suspeitas recaíssem sobre desafetos conhecidos por todos?
O juiz Marcelo lhe dissera que devia procurar um culpado no lado sombrio de Palomas.
Achara aquilo um tanto clichê.
Não estava ali, naquele instante, seguindo essa ideia?
A mente de Borges parecia-lhe um labirinto? Seria a mente de um psicopata? Estacionou.
Havia luz na sala.
– Vamos beber um Chivas? – tinha certeza de que o cego o receberia com essa pergunta.