Morte em Palomas (21/23)
A teoria do excesso
Uma mulher abriu a porta com uma mão trêmula.
Usava um vestido preto muito velho e sujo.
Tinha a pele branca, de um branco leitoso, e o pomo-de-adão saltado.
René Manhãs não se lembrava dela. Mantinha um toco de cigarro colado ao canto da boca e olhava firme. O cego Borges estava sentado atrás de uma pilha de livros empoeirados. O delegado contemplou cada objeto da sala como se deles esperasse uma grande revelação. Havia uma trepadeira muito verde que dava voltas em torno de um vaso escuro.
– Bonita planta – disse o comissário para a mulher.
– É de plástico – respondeu o cego.
O delegado sentiu-se constrangido.
Manobrou a sua cadeira de modo a não bloquear a passagem da mulher no pouco espaço disponível.
Sentia falta de ar. Tossiu.
– Por que um homem mais velho mataria uma guria, Borges?
– Pelos motivos de sempre: sexo, desejo e medo.
– Eu sei, eu sei... E por que mataria outros?
– Como posso saber?
– Algo me diz que você sabe. Exploramos todas as pistas, interrogamos todos os suspeitos, cercamos todas as possibilidades, fizemos todas as investigações...
– Está suspeitando de mim?
– Talvez.
– Numa ficção, delegado, se eu fosse o autor, o assassino agiria conforme a teoria do excesso. Conhece essa teoria?
– Creio que não? Tem um mate?
– Não prefere beber um Chivas?
Manhãs ficou puto, mas se conteve.
– Prefiro um mate.
– Faz sentido. Estamos no mata-mata.
A mulher saiu para providenciar.
– É minha irmã – disse o cego. – Vem aqui vez ou outra.
– Me conte, Borges.
– Já leu um certo Jean Baudrillard?
– Não estou lembrado. Ando meio sem tempo.
– Ninguém mais lê, delegado. Estamos pela hora da morte. Baudrillard sustentava que as coisas não desaparecem mais por extinção ou falta, mas por proliferação e excesso.
– Huummm... Poderia ser mais claro.
– Não, delegado, creio que não. Mas pense bem.
O mate chegou.
A conversa entre eles estendeu-se por mais uma meia hora.
Falaram da cabala, de punhais de prata, de labirintos e até de pendrives.
Manhãs explicou ao velho Borges o que significava um pendrive.
– É como uma biblioteca de bolso – disse Borges.
Ao se instalar no carro, René Manhãs já sabia o que ligava todos aquela série de crimes: para esconder a autoria da morte de Gisele, a adolescente provocadora, o assassino resolvera se transformar num fake de serial-killer, multiplicando cadáveres para sepultar o primeiro. Queimava as pistas fazendo-as proliferar.
Essa era a aplicação mortal da teoria do excesso: a profusão como única eliminação possível.
Só lhe faltavam respostas para três perguntas: quem? Por quê exatamente? E com ajuda de quem?
Essas respostas só podiam vir de outro mundo.
Um outro mundo mais do que possível.
O mundo virtual.
Como os hacker gostam das noites, pelo que lhe haviam explicado, o delegado foi ver o seu.
Era um menino de 16 anos.
Parecia um fantasma: esquálido e taciturno.
– Aqui está o nome, delegado – foi tudo o que disse.
René Manhãs leu e enterrou-se na cadeira.
– Wilson?
– Mathias.
– Que brincadeira é essa, guri?
– Esse é o nome: Wilson Matias no lugar do Tinga.
– VA se catar, fedelho.
– Brincadeirinha, delegado, aqui está o nome.