Juremir Machado da Silva

Morte em Palomas (22/23)

Morte em Palomas (22/23)

Desejo e medo

Chovia fino.
Mas o calor era forte, numa súbita elevação de temperatura.
O delegado René Manhãs convocou os inspetores Vieira e Patrício.
– Vamos buscar o mandante – disse.
Os dois homens espantaram-se.
Manhãs não se deu o trabalho de explicar.
Foram no carro do delegado.
– Mas essa não é a casa do Doutor Marcelo?
– Isso mesmo, Vieira. Esperem aqui.
Manhãs bateu na porta.
O juiz veio abrir pessoalmente.
Parecia até que esperava a visita.
Cinco minutos depois, estavam instalados na bela biblioteca.
– Por que a matou? – perguntou Manhãs de supetão.
– Porque nunca seria minha.
– Ela queria.
– Queria brincar um pouco. Nunca seria minha.
– Não foi só por isso.
– Tive medo de uma acusação de assédio sexual.
– Por causa dos e-mails?
– Certamente.
– Deve ter mais alguma coisa.
– Ela estava me forçando.
– A quê?
– Ora, a manter relações com ela.
– Não parece lógico matá-la por isso.
– Não é. Foi num impulso. Eu estava no limite.
– E depois?
– Depois, resolvi inventar um álibi absurdo e comecei a matar outras pessoas. A melhor maneira de esconder um cadáver é fazendo com que esteja por toda parte.
– A teoria do excesso de Jean Baudrillard...
– Conhece Baudrillard?
– O cego Borges me falou dele.
– Aquele cego enxerga demais.
– Como conseguiu ajuda?
– Alguns homens me deviam a liberdade.
– Não pensou que ficaria nas mãos deles?
– Já estava.
– Não é verossímil.
– Passei a vida lidando com crimes inverossímeis.
– Sabia que eu vinha?
– Infelizmente deixei rastros virtuais.
– Vai apodrecer na cadeia.
– Acho que não. Na verdade, estou convencido do contrário. Pretendo esperar o julgamento em liberdade.
– Seria um escândalo. O senhor representa perigo para a sociedade, pode fugir e o clamor popular seria enorme.
– A mídia vai fazer barulho, mas isso passa. Daqui a pouco, como sempre, ninguém mais se lembrará de mim.
– Impossível. Ninguém vai esquecer do primeiro serial-killer de Palomas. A população está muito assustada.
– Um fato mata o outro. É só esperar o próximo.
– Nenhum juiz vai lhe conceder um habeas.
– Iremos ao STF.
– O STF não deixará um assassino na rua.
– Com o STF eu me entendo.
Manhãs pensou ter visto um leve sorriso cínico marcar os lábios do magistrado.
– Vai entregar os seus capangas?
– Se isso me trouxer algum benefício...
Nada mais havia a fazer. Os dados estavam lançados.
Horas depois, bebendo um Chivas, Manhãs disse enigmaticamente para si mesmo.
– O juiz está mentindo.