Morte em Palomas (23/23)
O serial-killer de Palomas
Muitos leitores me pediram mais detalhes sobre o fim do caso do serial-killer de Palomas, folhetim inicialmente em 19 capítulos que publiquei aqui na coluna do Correio do Povo durante o mês de fevereiro de 2010.
Depois de muito esforço, consegui contato com o delegado René Manhãs.
Ele me informou que tivera algumas decepções.
O suspeito de ser culpado por todos os crimes, a começar pelo assassinato da jovem e bela Gisele, um juiz de Direito, passara alguns dias preso, em cela especial, na verdade uma sala ampla adaptada para recebê-lo, com televisão HD de plasma e ar condicionado, e fora solto em seguida para responder ao processo em liberdade.
Se entendi bem, isso se devera ao fato de o acusado ter mais de 70 anos e, segundo o despacho do ministro do STF, não representar perigo para a sociedade.
Afinal, matara todo mundo que lhe interessava e não teria mais qualquer razão para continuar agindo.
O delegado Manhãs, sempre ágil na sua cadeira de rodas, cumprira o seu papel: desvendara o caso com rapidez, inteligência e pouca violência. Teve ajuda do cego Borges para ver mais longe.
Confessara-me, no entanto, que o desfecho o surpreendera, sendo um tanto abrupto.
Estava seguindo uma pista e, de repente, a solução caíra-lhe no colo graças ao trabalho de um jovem hacker.
A sociedade palomense esperava que o juiz fosse levado a júri popular.
Havia quem temesse que o réu fugisse para o Uruguai, pois Palomas é um lugar de fronteira.
Outros, contudo, asseguravam que isso não aconteceria.
O juiz assassino foi chamado pela mídia sensacionalista de “Pimenta Neves de Palomas”, numa alusão a um famoso jornalista que matou a namorada a tiros, pelas costas, e continua em liberdade, apesar de julgado e condenado.
Sou leigo. Fico abismado. Uau!
René Manhãs tentara me convencer, na época, mês de março, acho, de que não havia motivos para total desencanto. Explicou que a justiça toma todos os cuidados para que os cidadãos possam se defender plenamente.
A regra é a liberdade, indicou.
A prisão antes do julgamento é a exceção, dissera.
Ainda mais no caso de um réu primário.
Um serial-killer?
Devo estar exagerando.
Certamente perdi algum detalhe.
A justiça sempre me parece um tanto absurda.
Certo é que o serial-killer de Palomas foi beneficiado por um habeas corpus.
E o clamor popular?, perguntei.
Manhãs desconversara.
Parece que o juiz serial-killer negociou uma delação premiada.
Teria redução de pena em troca de informações preciosas sobre o mensalão de Palomas.
É um mensalão envolvendo 18 partidos.
Aí é que a coisa me parecera mais confusa.
Creio que não entendi. Talvez eu tivesse de falar novamente com René Manhãs.
Enfim, pelo que ele me dissera, o acordo fora o seguinte: o juiz teria redução de pena para não revelar tudo o que sabe sobre o mensalão de Palomas.
Difícil de crer.
Em todo caso, depois que um dos assassinos do menino João Hélio chegou a ser beneficiado pelo programa de proteção a crianças e adolescentes ameaçados de morte, passei a acreditar em quase tudo.
Em julho, porém, recebi um novo telefonema de René Manhãs.
Havia uma reviravolta no caso.
Na verdade, ele nunca havia acreditado na versão do juiz.
Sabia que ele estava protegendo alguém.
O assassino era um escritor, amante do juiz, um tal de Juremir, conhecido em toda a Fronteira Oeste como Dunga, um sujeito bizarro, ressentido e famoso pela sua língua ferina e pela sua arrogância.
Um homônimo deste que vos fala.
Intrigado, perguntei ao delegado Manhãs:
– Mas o senhor não sabia que o delegado tinha esse amante?
– Não. O Juremir era o maior comedor da região.
– Comedor?
– Sim. Um verdadeiro matador.
– De homens?
– Não. De mulheres.
– Era bissexual.
– Ninguém sabia disso. Foi um choque para Palomas. Algumas mulheres se suicidaram.
– Estranho, delegado. O nome dele nunca apareceu ao longo da investigação.
– Diziam que estava em Montevidéu ou em Buenos Aires. Não se sabia de qualquer ligação dele com o juiz. Na verdade, sempre foram muito discretos.
– Onde se encontravam?
– Na biblioteca do cego Borges. Foi lá que se conheceram.
– Bizarro, delegado, extremamente bizarro.
– A vida é bizarra.
Fiz, então, a pergunta óbvia.
– Por que o senhor nunca acreditou no juiz?
– Eu havia jogado truco com ele algumas vezes.
– Truco?
– Sim. Sabe, certas noites de tédio em Palomas...?
– E daí?
– Nunca vi alguém blefar tão bem como ele.
– Blefar?
– Mentir.
– Só isso?
– Bem, ele era juiz.