Juremir Machado da Silva

Morte em Palomas (4/23)

Morte em Palomas (4/23)

A primeira vítima

O delegado René Manhãs, apesar dos seus 33 anos de serviços prestados à investigação científica e empírica de crimes, surpreendeu-se: era o corpo mais bonito que vira em toda a sua vida. Uma menina loira de, no máximo, 17 anos. Executada. Os 15 tiros disparados contra ela haviam atingido o alvo. Um deles esfacelara-lhe o queixo dando-lhe um ar desesperado de figura cubista. Outra bala entrara pelo seio esquerdo abrindo um rombo na pele dourada por onde o sangue fluía. Nenhum disparo havia sido feito a mais de um metro da vítima. Palomas acabava de perder a sua mais bela promessa. Manhãs virou-se para Libório como se o mundo lhe pesasse nos ombros:
– Você a conhecia?
– Sim. É a Gisele.
– Estava apaixonado por ela?
– Como todos.
– Todos quem?
– A galera.
– Galera?
– Os guris do colégio.
– Você a seguia?
– Sim.
– Desde quando?
– Desde que ele começou a ter um twitter.
– Hummm...
Manhãs chamou a perícia. Ficou olhando para o corpo sem dizer uma palavra. Libório continuava a tremer. Depois de um longo tempo de reflexão, mascando um chiclete para aplacar o desejo de fumar, o delegado como que redescobriu o menino tremelicando ao seu lado.
– Teria coragem de matá-la?
– Meu pai me mataria se eu fizesse isso.
– Transou com ela?
– Quem me dera? Sou até BV.
– BV?
– Boca virgem.
– Qual a sua idade?
– Vou fazer 19.
– Um barbado de 19 anos que nunca beijou uma mulher é capaz de tudo – disse uma voz rouca atrás deles.
Era o poeta municipal João da Égua. René Manhãs ordenou que ele não se aproximasse do local do crime. Mas João da Égua já estava de olhos arregalados diante da beleza da guria, que focava com sua lanterna potente. Olhava-a como se não fosse um cadáver. Quase babava.
– Estuprada, delegado?
– A perícia é que vai dizer.
Manhãs empurrou a cadeira de rodas para um ponto a uns três metros da menina morta. Ela era alta. Devia ter quase 1m80cm. Altura de modelo. Os cabelos dela eram longos e finos. Sem dúvida, havia feito chapinha na tarde antes de morrer. O delegado apontou algo no chão. Um objeto com uma ponta azul brilhava na grama. Parecia um isqueiro. Manhãs não respeitou a cena do crime.
– Um pendrive – murmurou Libório.