Juremir Machado da Silva

Morte em Palomas (5/23)

Morte em Palomas (5/23)

O faro da mídia

O assassinato de Gisele, 16 anos, filha do dono da principal mercearia de Palomas, foi um choque para todos. A menina era conhecida pela beleza, pelos bons resultados escolares e pelo sonho de ser modelo, com o que não concordava Josias, seu “ficante” mais efetivo, filho mais velho de um fazendeiro conservador, aquele mesmo que, numa discussão sobre adoções de crianças por casais homoafetivos, chamara de “viado” um advogado de posições mais avançadas. René Manhãs passou dois dias arrastando-se taciturno pelas ruas. Aquela morte parecia pesar-lhe mais do que as inúmeras que vira e desvendara ao longo da carreira. Várias vezes pensou em pendurar as chuteiras. Precisava, no entanto, segurar mais alguns anos para ter direito aos benefícios de uma aposentadoria complementar.
Ficou mais de uma hora na plataforma da estação. Gostava de recolher-se àquele recanto caído no esquecimento desde a passagem, anos antes, do último trem. Ali, na solidão do nascer do dia, tendo a torre da igrejinha de um lado e uma floresta de eucaliptos do outro, o delegado repetia incansavelmente: “Quinze tiros à queima-roupa”. Quinze tiros à queima-roupa contra uma menina linda como um sonho. Aquilo não lhe entrava na cabeça. O celular tocou e ele atendeu com tristeza:
– Ela não foi estuprada – disse-lhe a voz de um perito amigo que conhecia os seus métodos e adiantava o serviço.
René Manhãs desligou o telefone e ficou pensando com um tromba que lhe deformava o rosto. Quem teria razões em Palomas para matar uma adolescente desejada por todos e admirada até pelas suas pequenas rivais? No bolso, o delegado guardava o pendrive encontrado na cena do crime. O inspetor Vieira aproximou-se com um garrafa térmica e uma cuia de mate amargo. Manhãs continuou fechado.
– O Libório não foi – disse, por fim.
– Não?
– Não. Ela era sagrada para ele. Não teria coragem de matá-la nem de fazer amor com ela. Ficaria paralisado.
– Não é o que diz a Dona Marlene.
– A Marlene da calcinha preta?
– Essa mesma.
– É mais fácil ela ter saltado em cima dele.
– Por que tanta certeza?
– Eu investiguei o twitter dele.
Vieira estendeu-lhe um exemplar quase intocado da Folha de Palomas. A manchete da capa, no melhor estilo dos jornais espreme-que-sai-sangue, teve o efeito de um brutal coice na boca estômago do delegado.
O SACANA TINHA UM REVÓLVER NAS CUECAS.
– Na cueca?
– Nas cuecas – delegado.
– Como assim?
– Um 38 guardado sob a pilha de cuecas.
– Como vocês não viram isso?
– Ele tinha um armário na casa da avó.
As rugas do rosto de Manhãs pareciam raízes de umbu. A novidade contrariava a sua intuição e o seu método.
– E o pendrive encontrado junto ao corpo?
– O horror – suspirou o delegado, coçando o saco com a dissimulação de todo homem: como quem confessa um crime.