Morte em Palomas (6/23)
Figuras no enterro
Foi uma das mais belas manhã do verão. Não estava abafado como de costume. A violência do sol era aliviada por uma brisa com cheiro de mato. Palomas inteira compareceu ao velório de Gisele. Salvo Libório, em detenção provisória. Muitos cochichavam numa espécie de homenagem póstuma que os tornava familiares do que sempre lhes parecera inalcançável: a vida da guria assassinada com 15 tiros à queima-roupa. Wexley parecia obcecado:
– Meu Deus, como ela era gostosa!
– Gostosa, não, megagostosa – corrigiu Mano Bronx.
O delegado René Manhãs instalou-se na sua cadeira de rodas num ponto de onde podia dar um close no rosto de cada pessoa que se prostrava diante do caixão. Mascava freneticamente o seu chiclete de combate ao fumo. Desconfiava que estava consumindo mais nicotina do que nunca em sua vida. Viu Josias, o ficante de Gisele, postar-se ao lado da morta com um ar de viúvo. Ouviu quando o rapaz disse para que todos ouvissem muito bem:
– Isso não vai ficar assim.
Houve risos. João da Égua debochou.
– Esse aí ta se achando! Pensa que era marido.
O desfile de anônimos e de personalidades foi longo. O professor de matemática deixou escapar uma lágrima que, aos olhos de muitos, teve valor de confissão. A confissão de uma paixão nunca revelada. Zildinha, a maior rival de Gisele, estava linda toda de preta. Acordara cedo para fazer uma escova caprichada e sentia-se na passarela. O representante do Ministério Público, Manoel Elias, parecia pronto a apresentar denúncia contra todo mundo que se demorava um pouco diante do caixão. Dona Zulmira, esposa do Dr. Adair, considerada a mulher mais adúltera da região, chegou amparada no braço do marido. Marlene, a da calcinha preta, a dos seios mais belos do lugar, apareceu, para decepção dos homens, muito recatada.
A “galera” do colégio rendeu homenagem à colega murmurando um pedaço de uma música da banda Franz Ferdinand, que ninguém identificou. O juiz, Dr. Marcelo Ibizarra, estava mais vetusto do que nunca. Aos pais da guria, que alternavam arrancos de desespero e uma rigidez cadavérica, ele ofereceu uma das suas frases lapidadas:
– A inversão da ordem natural das coisas nos pesa como um excedente de sofrimento que nenhuma punição atenuará, mas a justiça dos homens terá de ser feita como redenção.
Ninguém entendeu se ele estava lavando as mãos ou tentando algo original como consolo. Richardson, um guri magrelo e cheio de espinhas, desmaiou ligado no seu MP3.
O cortejo chegou ao cemitério ao meio-dia em ponto. A última frase do Padre Lucas ecoou como uma sentença:
– A paz só voltará quando todos quisermos a paz.
Nesse exato instante, Valmor, filho da Vilma, a louca, veio correndo e postou-se diante da cadeira de rodas do delegado René Manhãs. Cuspiu uma frase seca:
– Acharam quatro corpos estraçalhados atrás do colégio.
Manhãs mordeu o lábio e balbuciou como se rezasse:
– Método, meu Deus, preciso de método...
Gisele foi sepultada. Já havia um fato novo.
Falta de corpo é um problema. Excesso, um problemão.