Morte em Palomas (7/23)
Imagens espetaculares
Quem nunca morre em Palomas ainda não sabe o que é a vida.
O mundo olhava para o Haiti enquanto Palomas era sacudida por tremores que nunca havia conhecido antes. O inspetor Vieira instalou a cadeira de rodas do delegado René Manhãs na viatura adaptada para a deficiência do chefe. Fazia aquilo de modo quase automático. Deixaram o cemitério para trás. No colégio, aguardava-lhes uma carnificina. Manhãs tinha o olhar embaçado. Sentiu-se incrivelmente emocionado quando foi colocado o primeiro tijolo na parede que engoliu o corpo da bela Gisele.
– Ela podia ser minha neta – murmurou.
– Ou minha filha – disse Vieira.
– Quanto tempo faltará?
– Para quê, delegado?
– Para a nossa vez.
– Vire essa boca para lá, delegado.
– Sempre penso nisso quando vou a um cemitério. É o nosso destino. Lembro-me de uma família previdente que mandou construir gavetas para todos os seus membros. Cada vez que morria um deles, quase sempre pela ordem, o mais velho dizia: “Esse buraco aí ao lado deve ser o meu”.
– Grande capacidade de antecipação – ironizou Vieira.
– A juventude crê na vida eterna – filosofou Manhãs.
– O que tinha no pendrive? – perguntou Vieira.
– Fotos de corpos destroçados.
Um silêncio espesso instalou-se entre eles. Manhãs parecia desconsolado. O inspetor Vieira dirigia como se farejasse algo no ar. Era baixo e forte. Sentava-se na ponta do banco. Fazia perguntas quase sempre abruptas:
– Que está acontecendo, delegado?
– Não tenho a menor ideia.
O resto do trajeto foi feito em silêncio. O delegado sentia vontade de tomar um chá ou um mate, mas não se atreveu a pedir ao subordinado que parasse num bar ou num café. Sabia o que esperava por eles. O celular dele tocou quatro vezes. Eram os seus homens dando informações sobre as investigações. Vitorino e Lindomar esperavam por eles na entrada da escola. De longe, pareciam dois postes em torno dos quais nada se movia. Nem eles, obviamente.
Nem o mais mórbido dos autores de romances policiais teria inventado o que René Manhãs encontrou num galpão cheio de velhas mesas de sala de aula e de armários com alguns livros e arquivos escurecidos pelo tempo. Quatro corpos jaziam no meio da peça. Quatro homens. Dois negros, um louro e um sujeito de cabelos castanhos. Entre eles, vários pontos em comum: todos tinham as vísceras para fora, as línguas cortadas e os pênis arrancados.
René Manhãs fez o sinal-da-cruz. O inspetor Vitorino adiantou-se. Era magro, alto e extremamente narigudo.
– Foram mortos à bala, delegado – disse.
– À bala?
– Sim. Em momentos diferentes. E transportados para cá.
– Como pode já saber disso?
– O diabo sabe por velho, delegado, e por observador.
– Então já sabe quem são os mortos. Não?
– Só aquele ali, o de cabelos castanhos. É o Adão.
– O guardador de carros?
– Esse mesmo, delegado, mais conhecido por estacionar todos os finais de tarde na cama da mulher do Dr. Adair.
O que seria dos confins do mundo sem o adultério, pensou o delegado.